Estado cria fundo de socorro e organiza resposta ao El Niño
Prepara RS estipula aporte de R$ 32,9 milhões para dividir entre municípios com histórico de episódios extremos, cria rede estadual de voluntariado e avança com centro estadual da Defesa Civil
*Por Filipe Faleiro, especial ADI Multimídia
O amparo às cidades frente ao possível El Niño de forte intensidade conta com mais ferramentas de resposta. O governador Eduardo Leite lançou ontem o Prepara RS, conjunto de medidas voltadas à prevenção, mitigação e organização das estruturas públicas diante da previsão de aumento das chuvas e de eventos climáticos extremos entre o segundo semestre deste ano e o início de 2027.
Conforme o governador, serão destinados R$ 32,9 milhões para ações de preparação e mitigação. Os recursos serão repassados por meio do Fundo Estadual de Defesa Civil de forma direta às cidades vítimas de intempéries climáticas, desde vendavais, temporais e enchentes.
Os valores variam entre R$ 200 mil e R$ 300 mil conforme o porte populacional dos municípios. As verbas poderão ser aplicadas em sistemas de monitoramento, equipamentos de alerta, drenagem urbana de pequeno porte, sinalização de rotas de socorro e implantação de pontos seguros para abrigo da população.
Segundo Eduardo Leite, a proposta busca reduzir o tempo de resposta em situações de emergência. “Estamos trabalhando com antecedência para que o Rio Grande do Sul esteja mais preparado para enfrentar os impactos do El Niño. A prevenção salva vidas, reduz danos e permite respostas mais rápidas e eficientes”, afirma.
Dois decretos foram assinados ontem, durante cerimônia com prefeitos e equipes de Defesa Civil de 70 cidades. Entre as novidades estão a criação de um mecanismo de repasse direto de recursos aos municípios, a formação de uma rede estadual de voluntariado e a construção de uma estrutura permanente para logística humanitária e gestão de crises.
Voluntários e logística
Outra frente apresentada pelo Estado é a criação da Rede de Voluntariado em Defesa Civil, com uma plataforma digital para cadastro, treinamentos e mobilização de voluntários em situações de emergência.
A medida busca organizar uma das principais forças observadas durante as enchentes de 2023 e 2024, afirma o governador. “Milhares de pessoas atuaram de forma espontânea em resgates, arrecadação de donativos e apoio às famílias atingidas”. Por meio da plataforma, afirma, será possível organizar grupos, escalas de atuação e melhor distribuição de voluntários durante emergências.
No centro estadual de Defesa Civil, em construção na Região Metropolitana, também será instalado o complexo estadual de logística humanitária. Com investimento de R$ 38,4 milhões, a estrutura será responsável pelo armazenamento, organização e distribuição de materiais durante situações de calamidade.
Planos de contingência
Um dos principais avanços apresentados pelo Estado está na preparação dos municípios. De acordo com o coronel Luciano Boeira, hoje todos os 497 municípios gaúchos têm planos de contingência.
Segundo ele, cerca de 80% desses documentos foram classificados entre médio e bom nível de qualidade pela equipe técnica estadual. O número representa uma mudança significativa em relação a 2024, quando apenas 60 municípios tinham planos estruturados.
Além da elaboração dos documentos, o Estado fez análises individualizadas das vulnerabilidades locais, identificando áreas de risco, capacidade de resposta e necessidades específicas de cada cidade.
A intenção é permitir que as decisões sejam tomadas com mais rapidez e precisão em caso de emergência. Com as informações, é possível ativar protocolos de mobilização das equipes de socorro, organização de doações, comunicação com a população, atuação de voluntários e acionamento de recursos emergenciais, afirma o coordenador da Defesa Civil do RS.
Monitoramento e prevenção
A meteorologista da Defesa Civil Estadual, Cátia Valente, reforça que o Estado trabalha neste momento com prognósticos climáticos e não com previsões de impactos específicos. Segundo ela, os modelos indicam alta probabilidade de formação de um El Niño forte ou muito forte, com aumento gradual das chuvas nas próximas semanas e possibilidade de intensificação dos efeitos ao longo da primavera.
“O pico do fenômeno é esperado para outubro. Trabalhamos com cenários climáticos, mas ainda não é possível prever quais serão os impactos em cada município”, destaca.
Conforme a especialista, a confirmação do fenômeno não significa a repetição das enchentes registradas em 2023 e 2024, já que eventos extremos dependem da combinação de diferentes fatores meteorológicos. “Para lançarmos alertas de temporais ou inundações, contamos com a previsão do tempo. Ela só nos mostra onde vai acontecer com no mínimo dez dias de antecedência.”
Comunicação para construir resiliência
A preparação para o El Niño passa por radares, planos de contingência e também por mudança cultural. Conforme o secretário estadual de Comunicação, Caio Tomazeli, a estratégia do governo também depende da capacidade de levar informação qualificada às comunidades antes, durante e depois dos eventos climáticos.
A proposta integra Estado, municípios, Defesas Civis e veículos de comunicação em um fluxo permanente de orientação à população. O objetivo é divulgar desde previsões climáticas e alertas até informações sobre preparação das cidades, funcionamento dos planos de contingência, rotas de evacuação, estruturas de apoio e formas de participação da sociedade.
Segundo Tomazeli, a construção da resiliência exige envolvimento coletivo. “Resiliência é para sempre. É uma obra que nunca termina e que precisa conquistar as pessoas. É uma cultura de uma sociedade que sabe que precisa conviver com as mudanças climáticas e permanentemente melhorar a sua condição.”
Dentro dessa estratégia, os veículos regionais são considerados parceiros fundamentais. Para o secretário, jornais, rádios e portais do interior têm papel decisivo para aproximar informações técnicas da realidade das comunidades e ampliar o alcance das orientações produzidas pelo Estado e pelos municípios.
Durante encontro com representantes da Associação dos Diários do Interior (ADI), Tomazeli agradeceu o apoio da entidade na divulgação das ações ligadas ao Plano Rio Grande e reforçou o convite para que os veículos acompanhem e compartilhem as informações relacionadas ao El Niño e à preparação climática.
“Preparar-se para eventuais eventos climáticos é algo que temos de fazer sempre. Convido a ADI a seguir aderindo às iniciativas e mensagens que emitimos sobre o El Niño e sobre a previsão climática para oferecer a melhor informação à sociedade gaúcha”, afirma.
Para o governo, a preparação não depende apenas de estruturas públicas. Também exige que a população saiba onde buscar informação, como agir em situações de risco e de que forma colaborar com as ações de prevenção e resposta.
Entenda
O que muda com o Prepara RS
* repasse de R$ 32,9 milhões aos municípios
• recursos diretos do Fundo Estadual de Defesa Civil
• rede estadual de voluntariado
• construção do Centro Estadual de Logística Humanitária
• diagnósticos individualizados de vulnerabilidade
Quanto cada cidade pode receber
* R$ 200 mil até 20 mil habitantes
• R$ 250 mil entre 20 mil e 50 mil habitantes
• R$ 300 mil acima de 50 mil habitantes
O que dizem os modelos
* mais de 95% de chance de ocorrência do El Niño
• 63% de probabilidade de episódio muito forte
• pico previsto entre outubro de 2026 e janeiro de 2027
• tendência de chuva acima da média no Sul do Brasil
Eixos estratégicos
O Prepara RS é executado a partir de 11 eixos estratégicos de atuação:
1 - Fortalecimento da governança e da coordenação do Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil;
2 - Fortalecimento das capacidades municipais;
3 - Monitoramento, alerta e inteligência situacional;
4 - Comunicação de risco;
5 - Prevenção e mitigação;
6 - Proteção de infraestruturas críticas;
7 - Logística humanitária;
8 - Acolhimento e abrigamento emergencial;
9 - Voluntariado, participação comunitária e mobilização social;
10 - Preparação da capacidade de resposta e coordenação operacional;
11- Apoio financeiro às ações de proteção e Defesa Civil.