Saúde
O pior momento já passou
O médico pneumologista, Jorge Alan Souza, vê cenário otimista e aposta na educação e pesquisa para combatermos o vírus da Covid-19
Por: Redação
Publicado em: terça, 23 de novembro de 2021 às 11:57h
Atualizado em: terça, 23 de novembro de 2021 às 12:01h

"Quando podemos voltar ao normal?". Uma pergunta que todos nós fizemos, praticamente todos os dias, e que, de acordo com o médico pneumologista, Jorge Alan Souza, a alta frequência desse questionamento é perfeitamente compreensível, já que a paralisação causou uma série de dores imensuráveis entre vidas perdidas, pessoas doentes, mutação do vírus, empregos terminados, pessoas isoladas e o agravamento da desigualdade – o que nos faz desejar que essa fase passe. Seguir em frente é vontade unânime, mas infelizmente esse desejo não traz o caminho, não ainda, mas há esperança.
Uma das principais referências quando o assunto é Covid-19 na região, com atendimento de milhares de pacientes, casos leves e graves, o pneumologista se mostra confiante no sucesso dos medicamentos via oral contra a doença, que estão em fase de estudos, junto com a vacina, ainda que isso não signifique dar adeus às máscaras e ao isolamento. 

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O que podemos esperar ainda dessa pandemia? 
Jorge Alan –
O pior momento já passou. Com o avanço da vacinação a tendência é que os casos diminuem gradativamente. Por ora, as estatísticas trazem certa esperança: desde junho, as médias móveis de casos e óbitos por Covid-19 caem constantemente. Mesmo assim, os últimos dias foram marcados por ligeiros aumentos nesses índices de pessoas doentes. No auge da crise, de março a maio, o país chegou a registrar médias móveis de 77 mil novos casos e três mil mortes pela doença todos os dias. Somente na região, na época, havia 16.432 casos confirmados, 263 óbitos e 937 pessoas com a doença em estágio ativo ao mesmo tempo.  Não à toa, o país foi classificado como o epicentro da pandemia naquele momento. 
Mais recentemente, ao longo do mês de setembro, as médias móveis estavam na casa dos 14 mil novos casos e 500 óbitos por covid-19 – números que chegam a ser seis vezes menores do que o registrado lá no pico da segunda onda. Muito disso se deve à vacinação, que no Brasil podemos considerar que tem boa aceitação e, sim, tem sido imprescindível quando falamos em redução do número de mortes e até de infecções pela doença.  

Quais os avanços que já tivemos, em especial na área da medicina? 
Jorge Alan –
O primeiro deles é a vacina e o acesso de cada vez mais pessoas ao imunizante com a abrangência do público-alvo. Mas hoje, surge como uma luz no fim do túnel os estudos com antivirais em comprimido, já em testes, inclusive no Brasil. Os medicamentos são voltados 80% para diagnóstico da Covid-19, aqueles leves e moderados, que não precisam ser hospitalizados. Dois deles são o molnupiravir, para casos pós-exposição ao vírus, ou seja, aqueles que já passaram pela Covid, e favipiravir, para quem está doente. Ambos têm mostrado muita eficiência para impedir a reprodução do vírus e, consequentemente, o agravamento do quadro. Há, ainda, os nossos já conhecidos anti-inflamatórios, indicados para pacientes graves, porém não intubados, como o baricitinibe, que já vem sendo utilizado e reduz consideravelmente os óbitos por Covid-19. 


Qual a importância da vacinação, principalmente da terceira dose? 
Jorge Alan –
É de extrema importância. Não chegaríamos neste patamar mais tranquilo se não fosse a vacinação. Apesar de as doses disponíveis perderem um pouco da efetividade contra a variante Delta, já registrada aqui na região, elas continuam a funcionar relativamente bem, especialmente contra as formas mais graves da Covid-19, que exigem hospitalização e intubação. Sou um defensor da terceira dose, inclusive a minha proposição aos órgãos de saúde é de que as pessoas economicamente ativas sejam priorizadas para receber essa terceira dose, pois são estes que mantêm a nossa economia e que, automaticamente, estão mais expostos a contrair a doença por, necessariamente, terem que circular. Profissionais de saúde mais expostos ao vírus também devem receber a dose de reforço e os grupos vulneráveis, logicamente. Não sabemos ainda como será em relação a essa priorização, infelizmente, não é uma escolha minha. Sei que alguns questionam o porquê desta dose de reforço, se antes eram duas doses, mas é porque os estudos mostram que, após um período, a proteção da vacina diminui, sem contar que a Delta tem uma enorme capacidade de transmissão e devemos atentar para isto.

Até quando precisaremos manter as medidas de prevenção?
Jorge Alan –
Já falei em outras oportunidades que acredito que a máscara passará a ser um acessório indispensável dos nossos dias, daqui para frente, não para todos, mas pelo menos para aqueles que estão doentes. Não vejo uma mudança a curto e médio prazos no que diz respeito a esses cuidados básicos. Para se somar a isso, temos agora a exigência dos comprovantes de vacinação, ou passaporte vacinal, uma medida importantíssima, que garante a mínima proteção, pois já convivemos com a cepa Delta em que um doente contamina cinco ou mais pessoas. Reconheço que todos estamos cansados, mas podemos enfrentar outra onda e há chances reais de, também, novas variantes bem mais resistentes. Por isso, precisamos vacinar. Acredito que quando atingirmos 80% da população vacinada aqui no Brasil, com imunização completa, já daria para discutir o uso obrigatório das máscaras e das outras medidas de contenção. 


Sobre a variante Delta e a confirmação de casos na região, e possibilidade de novas variações do vírus, há motivos para preocupação? 
Jorge Alan –
Há sim a possibilidade. Já é clara a presença da Delta em nossa região, uma variante mais contagiosa e mais transmissível que a Alfa, mas que também responde bem à vacinação. Temos também a variante Mu, na Colômbia, que está deixando as OMS em alerta. Vivemos, além disso, um outro problema, que já vem sendo alertado por especialistas, que é o desmatamento, a Amazônia é um grande depósito do coronavírus, quanto mais desmatamento, mais microrganismos perto da população. Já tivemos febre amarela urbana, raiva, volta de doenças erradicadas. Ou respeitamos a natureza ou novas epidemias virão. Por isso, a flexibilização precisa ser gradual e com responsabilidade, onde os gestores devem ter pulso firme para agir a tempo caso percebam uma piora.

Quais seriam as projeções para 2022, com relação à pandemia?
Jorge Alan –
Eu acredito na ciência e nos avanços que já tivemos. Na minha opinião é que seja possível decretar o fim do caráter pandêmico da doença no país até o fim do primeiro trimestre do ano que vem. Isso não quer dizer que deixaremos de conviver com o vírus, porém, não vejo isso acontecer sem a vacinação. Como se trata de Ciência, penso ser necessário esperar e ver os dados sobre a imunização contra as variantes. Creio que vamos seguir com a vacina no calendário, a exemplo da H1N1, e com a fase de reabilitação dos pacientes. Além disso, vejo que medidas como o uso de máscaras, distanciamento físico e higiene pessoal constante continuarão sendo importantes para aquelas pessoas que apresentem alguns sintomas. Acredito que daqui alguns meses, devemos seguir essa orientação. Isso é uma medida muito mais cultural e educacional do que científica.
 

Fonte: Jornal O Alto Uruguai