O que nos conecta, nos desconecta
A conexão digital virou anestésico para o desconforto do presencial
Já parou pra pensar que o mesmo aplicativo que te aproxima de um amigo que mora do outro lado do mundo pode te afastar de quem está sentado no sofá ao lado? É esse o paradoxo que vivemos todos os dias. As redes sociais nasceram com a promessa de encurtar distâncias. E cumpriram. Nunca foi tão fácil encontrar gente com interesses parecidos, reencontrar colegas de escola, acompanhar o trabalho de especialistas, criar comunidade em torno de causas.
Em 30 anos coordenando pesquisas no IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, vi esse movimento acontecer na prática: pessoas que se sentiam isoladas, encontraram voz e pertencimento no digital. O problema é que, ao mesmo tempo em que conectamos o mundo, desconectamos a casa.
As redes não oferecem apenas entretenimento, vendem a permanência e o engajamento dos usuários. Quanto mais tempo você passa rolando, clicando ou assistindo, mais dados são coletados e mais anúncios são vendidos.
E pra prender a sua atenção, as redes te entregam o que já é parecido com você. Você conversa com “iguais” sobre política, futebol, maternidade, carreira. Você cria vínculos reais, troca apoio, faz negócio. Mas enquanto você responde um comentário de um desconhecido às 21h, o filho tenta te contar sobre a escola e você diz “só um minutinho”. Enquanto você dá like na foto do primo que mora em Portugal, seu parceiro almoça do seu lado olhando também para a própria tela. A conexão digital virou anestésico para o desconforto do presencial. É mais fácil opinar no post do que resolver a conversa difícil na mesa de jantar. É mais fácil mandar áudio de 2 minutos do que ouvir em silêncio quem está na sua frente.
Outro ponto que aparece muito nas nossas pesquisas: as redes deram voz, mas tiraram escuta. Antes, pra saber a opinião do colega de trabalho, você precisava perguntar. Hoje você já viu o posicionamento dele nos stories, no tweet, no compartilhamento. Você acha que já sabe quem ele é, e para de perguntar. A gente trocou a pergunta pela suposição. Trocou o diálogo pelo monólogo. E isso desconecta. Porque relacionamento não se sustenta só de conteúdo. Se sustenta de pergunta. De “como foi teu dia?”. De “por que você pensa assim?”. De silêncio junto. Quando tudo vira performance, a gente esquece de ser gente comum perto de gente comum.
Não estou falando de demonizar a tecnologia. Eu trabalho com dados e acredito na força dela. O ponto é: a ferramenta que deveria nos aproximar virou um terceiro elemento na relação. E esse terceiro grita mais alto.
Depois de três décadas perguntando para os brasileiros sobre comportamento, percebi uma coisa: ninguém quer sair das redes. O que as pessoas querem é voltar a se sentir presentes. E presença é escolha. É micro-decisão. É regra de “sem celular na mesa”. É olhar no olho antes de responder mensagem. É perguntar de novo, mesmo achando que já sabe a resposta. É entender que conexão real dá trabalho.
O difícil é estar conectado e, ao mesmo tempo, presente. Estar online e não perder o offline. Estar no mundo e não sair de casa. Talvez o futuro não dependa de mais uma rede social. Talvez dependa da nossa capacidade de fechar o app e abrir a porta. De guardar o celular e pegar na mão. De trocar a resposta pronta pela pergunta sincera. Porque, no fim, o que realmente nos conecta nunca foi a internet. Foi a vontade de estar junto. E isso, nenhum algoritmo substitui.
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