“Travessia” revisita marcas da infância e convida público a olhar para a própria história
Mostra da artista Valéria Pinheiro fica aberta até o dia 17 na Biblioteca da URI/FW
Resumo
“Travessia” aborda marcas deixadas pela infância.
Obras exploram memória, afeto e criança interior.
Arte propõe reflexão sobre dor e reconstrução.
Bate-papo aproxima exposição e Psicologia.
A arte como espaço de encontro, reflexão e ressignificação conduz a exposição “Série Travessia”, da artista Valéria Pinheiro, que pode ser visitada até o dia 17, na Biblioteca da URI/FW. A mostra reúne pinturas que abordam memória, identidade, perdas, esperança e recomeços, propondo ao público um olhar para experiências que deixam marcas ao longo da vida.
A série parte do encontro entre memória, ferida e escuta e investiga marcas invisíveis deixadas pela infância. Segundo o texto curatorial, são experiências que podem permanecer adormecidas no inconsciente, mas continuam repercutindo na vida adulta por meio dos afetos, medos, ausências, mecanismos de defesa e das formas de relacionamento consigo e com o outro.
O que retrata
Entre as pinturas, uma menina aparece como figura recorrente. Embora tenha origem em uma experiência íntima e autobiográfica da artista, a personagem assume um significado coletivo e representa a criança que desejava acolhimento, escuta, proteção e validação, mas que precisou aprender a sobreviver antes mesmo de compreender a própria dor.
A escolha do material utilizado nas obras reforça essa narrativa. As pinturas são produzidas sobre papelão, cuja fragilidade e vulnerabilidade estabelecem uma relação simbólica com a infância. Assim como o suporte pode dobrar, rasgar e absorver marcas, as experiências vividas nos primeiros anos também podem carregar palavras, silêncios, violências emocionais e ausências capazes de influenciar a construção das subjetividades.
Ao longo da exposição, imagens relacionadas ao choro, à carência afetiva, ao apego a brinquedos e à necessidade de abraço, escuta e pertencimento ajudam a construir a narrativa visual. A proposta inclui ainda o diálogo entre a figura adulta e sua própria criança interior, estabelecendo simbolicamente um reencontro entre passado e presente. Nesse percurso, a série não permanece somente na representação da dor, mas avança em direção à possibilidade de reconstrução.
Entre a dor e a reconstrução
Símbolos presentes nas pinturas ampliam as possibilidades de interpretação e funcionam como metáforas relacionadas à memória, ao trauma, ao afeto, à proteção, ao silenciamento e à cura. Dessa maneira, o espectador é convidado não apenas a observar os trabalhos, mas a estabelecer uma relação emocional com aquilo que encontra nas obras.
Na concepção de “Travessia”, a arte aparece como uma possibilidade de elaboração das experiências, sem ser apresentada como resposta simplificada ao sofrimento. O fazer artístico ocupa o lugar de enfrentamento, consciência e ressignificação, criando um caminho entre a dor e a reconstrução de sentidos.
A exposição ainda amplia a reflexão ao questionar de que maneira as feridas da infância acompanham a formação dos adultos. A proposta passa pelo cuidado com a criança interior e pela possibilidade de interromper ciclos de violência emocional, abandono e endurecimento afetivo. Em vez de oferecer respostas definitivas, as pinturas procuram proporcionar presença, escuta e encontro, compreendendo o acolhimento da própria dor como uma possibilidade de transformação coletiva.
Bate-papo
Dentro da programação da mostra, nesta terça-feira, 11, à noite, será realizada uma conversa especial com acadêmicos do curso de Psicologia. A atividade busca ampliar o diálogo entre arte, emoções e processos de transformação humana.
Fonte: Jornal O Alto Uruguai