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Empreendedorismo
Cinco décadas pela família e pela profissão
Torneiro mecânico desde a adolescência, Nestor Antonio Bortoluzzi, o Pingo, completa 50 anos de atuação profissional marcada pela simplicidade e honestidade
Por: João Victor Cassol
Publicado em: segunda, 09 de agosto de 2021 às 08:41h
Atualizado em: segunda, 09 de agosto de 2021 às 08:51h

O que 50 anos de carreira são capazes de construir? De imediato, os pensamentos tendem a levar a respostas que mencionem conquistas materiais, dinheiro, propriedades ou carros. É claro que tudo isso também é importante e faz parte da caminhada, mas no caso de Nestor Antonio Bortoluzzi, 65 anos, as cinco décadas de dedicação diária ao ofício de torneiro mecânico se confundem com a própria vida de Pingo, apelido pelo qual é conhecido. Dos tornos, fresas, plainas e uma coleção de outros equipamentos, o frederiquense tirou o sustento para constituir família e, além do legado hereditário, edificaram a imagem de um profissional reconhecido por aquilo que faz e pelo caráter que tem.
O jubileu de ouro profissional de Pingo é preenchido por uma história que iniciou quando Bortoluzzi ainda tinha 15 anos. Desde então, a habilidade manual e a criatividade para encontrar, a cada dia, soluções para as situações que chegam até ele, tornaram Pingo um dos torneiros mais reconhecidos na região. Apesar de tanto tempo de trabalho, o exercício diário de pensar em alternativas para os “problemas” fizeram com que ele se tornasse uma verdadeira biblioteca ambulante, com uma ampla memória que guarda desde as minúcias do ofício até datas e eventos importantes na vida. “Comecei como torneiro mecânico em 11 de agosto de 1971. Trabalhei em uma empresa por 30 anos e, em 12 de fevereiro de 2001, abri meu próprio espaço. Em 20 de novembro de 2003, me mudei e vim para cá, onde permaneço até hoje”, recorda, fazendo referência à sede da Tornearia do Pingo, que fica às margens da BR-386, quilômetro 32, em Frederico Westphalen.

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De família para família
A trajetória de Pingo como torneiro não teria ocorrido da mesma maneira se não tivesse a participação dos familiares em todos esses 50 anos. Um deles é o irmão, Celso Bortoluzzi, conhecido como Gordo. Foi Gordo, por exemplo, quem assumiu uma vaga deixada por Pingo no banco do Estado, logo no começo da carreira profissional do irmão, quando ele recusou a oportunidade de trabalhar como aprendiz na instituição financeira e decidiu seguir em meio ao maquinário. 
Anos mais tarde, quando Pingo já tinha três décadas como torneiro mecânico, Gordo voltou a ter papel importante: ajudou o irmão a montar a própria tornearia, que inicialmente ficava no bairro Barril. Foi ali que a situação financeira de Pingo se estabilizou. 
– A empresa significa tudo para mim e para a minha família. Foi abrir ela que permitiu que a gente tivesse um pouco mais de conforto, que não vivesse apertado, tivesse a chance de ter uma vida melhor. Antes, como empregado, nem sempre a firma podia pagar, às vezes atrasava. Depois, quando coloquei a tornearia, melhorou bastante. É claro que isso é acompanhado de bastante responsabilidade – comenta Pingo.
Uma vez montado o próprio negócio, Bortoluzzi teve na companheira Cleide Filippe Bortoluzzi, 60 anos, e nos filhos Bruno Luís e Raquel os pilares para que a empresa prosperasse. Criado em um sistema diferente de controle, e sem muita prática com a parte contábil, Pingo recorreu ao filho Bruno Luís como principal assistente. Ele ajudou a organizar a empresa e permitiu que o pai se concentrasse em fazer, de cabeça tranquila, aquilo que faz de melhor. 

Mulheres no comando
Mais recentemente, outra parte da família passou a se fazer ainda mais presente no cotidiano da tornaria. Com a saída de Bruno, que decidiu seguir outra carreira, quem mantém tudo organizado é a esposa de Pingo, Cleide, e a filha Raquel. Por trás dos computadores, elas permitem que o torneiro continue conversando com os clientes com a mesma simpatia e simplicidade de sempre, sempre disposto a fazer o melhor por eles. 
E não se engane: se 50 anos parecem tempo o suficiente para que Pingo decidisse se fechar em si mesmo e guardar os segredos da profissão, o torneiro faz questão de ensinar tudo a todos que começam o trabalho no local. “Muitos chegam aqui buscando oportunidade e sem experiência nenhuma. Então eu ensino, ajudo, repasso o que sei para aqueles que estão começando agora, mas que têm vontade de aprender”, diz.
Por baixo do chapéu que o acompanha e do macacão azul que carrega tantas histórias que não cabem em pouco espaço, Pingo não esconde que está chegando ao fim da carreira como torneiro. Mas, ainda que os dias de labuta estejam próximos do fim, e que o merecido descanso profissional chegue em breve, para sempre ele será lembrado por ter trilhado uma carreira guiada por princípios que transformaram um menino de 15 anos em um pai e profissional conhecido pela honestidade, humildade e seriedade.

Fonte: Jornal O Alto Uruguai
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