Por que os jovens estão se afastando da política?
É a geração com maior acesso à informação
Durante muito tempo, a juventude foi entendida como uma etapa breve. Cedo, homens e mulheres assumiam responsabilidades profissionais, constituíam família e ocupavam papéis associados ao mundo adulto. Nas últimas décadas, esse percurso mudou. A ampliação da escolaridade, as mudanças familiares, as transformações no trabalho e a presença da internet alteraram a forma como as pessoas amadurecem e constroem sua identidade.
O tempo da juventude se estendeu. Muitos adultos jovens preservam comportamentos, valores e inseguranças antes associados a idades mais baixas. É o que podemos chamar de juventude prolongada, uma fase de experimentações, mudanças de rumo e busca por um lugar no mundo.
Nas pesquisas realizadas pelo IPO, Instituto Pesquisas de Opinião, acompanhamos esse comportamento entre os jovens de 16 a 24 anos e os jovens adultos de 25 a 34 anos. Quando a escutatória envolve política e eleições, um fenômeno chama a atenção. Os mais jovens demonstram maior ceticismo, descrença e distanciamento do processo eleitoral, inclusive em comparação com os jovens adultos.
À primeira vista, há uma contradição. É a geração com maior acesso à informação. Ainda assim, parte dela demonstra pouco interesse em participar das decisões que definem os rumos da cidade, do estado e do país.
Esse afastamento não nasce apenas da falta de informação. Ele também está relacionado ao excesso de estímulos. O jovem atual recebe uma quantidade enorme de conteúdos e modelos de comportamento. Tudo é apresentado como experiência ou escolha pessoal. Diante de tantos caminhos, encontrar uma identidade, assumir uma posição e acreditar em projetos coletivos se torna difícil.
Ao aprofundar essa questão em grupos focais, os sociólogos do IPO identificaram uma dimensão mais sensível. Quem hoje tem entre 16 e 24 anos cresceu em meio à polarização política, atravessou uma pandemia em uma fase decisiva da formação e presenciou conflitos na própria família.
Para muitos, a política não apareceu primeiro como espaço de participação. Ela apareceu na discussão entre parentes, no afastamento de primos, no aniversário em que alguém preferiu não comparecer para evitar outra briga. Os depoimentos revelam indignação, frustração e marcas de um trauma social e político.
Essa geração também cresceu ouvindo que os políticos não são confiáveis, que o transporte público não funciona, que a violência aumenta e que o atendimento de saúde de alguém da família depende de uma longa fila.
Imagine uma criança ou um adolescente absorvendo tudo isso enquanto vê a política dividir pessoas que ama. Aos poucos, pode se formar a ideia de que participar significa entrar em conflito e correr o risco de romper relações.
O desinteresse político dessa geração não é apenas a indiferença, mas também é uma forma de proteção. Compreender esse sentimento é o primeiro passo para reconstruir vínculos. Para aproximar os jovens da vida pública, será preciso apresentar a política como espaço de diálogo, pertencimento e solução, e não apenas como disputa. Essa geração.com precisa voltar a perceber que sua voz tem valor e que participar pode transformar o futuro. Para tanto terá que experimentar debates eleitorais mais focados em torno de ideias, projetos e menos focados em agenda de costumes e corrupção.
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