Para além das grades
O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção da infância
Vivemos uma época em que as grades fazem parte da paisagem. Cercam casas, escolas, praças, condomínios e estabelecimentos comerciais, e são vistas como símbolo de proteção. Talvez, porém, exista uma pergunta mais importante do que saber por que construímos tantas grades: quem elas realmente protegem? Quando olhamos para as crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, o paradoxo é inquietante. O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção da infância: a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente os reconhecem como sujeitos de direitos e estabelecem que sua proteção é dever da família, da sociedade e do Estado, com absoluta prioridade. Ainda assim, seguimos convivendo com a pobreza infantil, a violência, o abandono, a evasão escolar e o trabalho precoce. Talvez o maior obstáculo não esteja na falta de leis, mas na forma como a sociedade reage à vulnerabilidade. Em vez de pontes, construímos grades - não apenas as de ferro, mas as invisíveis da indiferença, do preconceito e da transferência de responsabilidades. A indiferença é a mais resistente delas: não se vê, não faz ruído, mas permite que crianças permaneçam invisíveis diante da fome, da violência e do fracasso escolar. Aos poucos, passamos a proteger a sociedade das crianças vulneráveis, quando o desafio sempre foi proteger as crianças da vulnerabilidade produzida pela própria sociedade. Nenhuma criança nasce vulnerável. A vulnerabilidade é consequência de desigualdades, da ausência de oportunidades, da violência e da exclusão. O que a sociedade produz não pode ser tratado como problema exclusivo das famílias, da escola ou do Estado. A proteção da infância é responsabilidade compartilhada e começa quando deixamos de perguntar de quem é o problema para perguntar qual é a nossa responsabilidade diante dele. Corresponsabilidade não significa que todos cumpram a mesma função, mas que ninguém está autorizado a permanecer indiferente. A verdadeira proteção não começa quando erguemos muros mais altos, e sim quando fortalecemos vínculos, acolhemos, escutamos, educamos e garantimos oportunidades, para que nenhuma criança seja definida pelas dificuldades que enfrenta, mas pelas possibilidades que lhe são oferecidas. Talvez esse seja o maior desafio do nosso tempo: substituir a cultura das grades pela cultura do compromisso. Uma sociedade segura não é a que esconde a infância vulnerável atrás de muros, mas a que compreende que o futuro de todas as crianças diz respeito a todos nós. Afinal, grades podem proteger patrimônios; somente pessoas comprometidas conseguem proteger crianças.
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