Egressa da UFSM/FW é uma das pesquisadoras que encontrou superbactéria no Guaíba
Gabriela Anzanello comentou sobre a amostra coletada em Porto Alegre, que se mostrou imune a 14 antibióticos e é considerada super perigosa pela OMS
Resumo
- Pesquisadora formada na UFSM/FW participou da descoberta da superbactéria Acinetobacter baumannii em quatro pontos do Rio Guaíba.
- A bactéria é considerada prioridade crítica pela OMS devido à resistência a diversos antibióticos e ao difícil tratamento das infecções.
- O achado reforça a necessidade de ampliar e qualificar o tratamento de efluentes para evitar a disseminação de microrganismos resistentes.
- A pesquisa também investiga como eventos climáticos extremos afetam o saneamento e destaca o potencial das Soluções Baseadas na Natureza para aumentar a resiliência dos sistemas.
Por meio do projeto ClimaRes WaSH (CW), do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), em maio de 2026, pesquisadores encontraram a superbactéria Acinetobacter baumannii em quatro pontos do Rio Guaíba: nas praias do Lami e de Ipanema, próximo à foz do arroio Dilúvio e próximo à EBAP Menino Deus. Entre os nomes que trabalham no estudo está Gabriela Anzanello Rodrigues, egressa do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária do Campus da Universidade Federal de Santa Maria em Frederico Westphalen (UFSM/FW).
Em conversa com a UFSM/FW, Gabriela comentou sobre a importância desse achado científico. “A. baumannii é uma espécie de grande relevância clínica, especialmente quando associada a perfis de resistência a antimicrobianos”, destaca. “Encontrar essa bactéria em ambiente aquático natural reforça um alerta sobre a necessidade de ampliar e melhorar o tratamento de efluentes como um todo”, explica.
Atualmente doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental do IPH, a cientista ressalta que a superbactéria foi listada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2024 como uma das mais perigosas do mundo por sua resistência a diferentes tipos de antibióticos. “Trata-se de uma bactéria considerada prioritária pela OMS quando associada à resistência a determinados antimicrobianos”, pontua. “A própria OMS considera Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos como um patógeno de prioridade crítica para saúde pública, justamente pela dificuldade de tratamento e pela necessidade de novas estratégias de controle e prevenção”, complementa.
Gabriela também participa do CLIMASANO, um programa de pesquisa focado em resposta de saneamento e saúde em emergências climáticas no Rio Grande do Sul. Com a pesquisa ainda em andamento, a engenheira não adianta os resultados, mas já sinaliza sobre as primeiras impressões. “Os eventos climáticos extremos afetam diretamente as infraestruturas de saneamento. Chuvas intensas, enchentes e alagamentos podem sobrecarregar redes coletoras, estações elevatórias e estações de tratamento de esgoto”, ressalta.
Ao longo da conversa, Gabriela também comentou sobre a importância das Soluções Baseadas na Natureza (SBN) e como esta e outras “soluções podem ser combinadas para tornar o saneamento mais resiliente frente às mudanças climáticas”. Além disso, evidenciou o valor gerado pelo ensino superior público para o interior do país. “Levar o ensino superior de qualidade e gratuito para o interior do estado é imprescindível. A excelência da UFSM/FW e sua proximidade com o interior do estado faz com que a educação superior seja acessível a grupos que antes não era”, finaliza.
Gabriela Anzanello Rodrigues
É doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (IPH/UFRGS). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental (UFSM) na linha de Tecnologias Aplicadas ao Meio Ambiente (2025). Graduada em Engenharia Ambiental e Sanitária pela UFSM/FW (2022). Desenvolve pesquisas e projetos nas áreas de Soluções baseadas na Natureza e tratamento de água e efluentes, com foco em resistência antimicrobiana, sistemas descentralizados, gestão do saneamento, wetlands construídos, entre outros.
Leia a entrevista na íntegra a seguir:
UFSM/FW - O que significa encontrar a Acinetobacter baumannii no Guaíba?
Gabriela Anzanello — É um achado de grande importância ambiental e sanitária. Embora bactérias do gênero Acinetobacter possam ocorrer no ambiente, A. baumannii é uma espécie de grande relevância clínica, especialmente quando associada a perfis de resistência a antimicrobianos. Encontrar essa bactéria em ambiente aquático natural reforça um alerta sobre a necessidade de ampliar e melhorar o tratamento de efluentes como um todo, pois possivelmente a rota de entrada em corpos hídricos desta e de outras bactérias de importância clínica é o esgoto.
UFSM/FW — Quais perigos estão relacionados a esta bactéria?
Gabriela Anzanello — A. baumannii é uma bactéria de grande relevância clínica porque pode causar infecções graves, principalmente em ambientes hospitalares e em pacientes mais vulneráveis, como pessoas internadas em UTI e imunocomprometidas, por exemplo. O grande problema é que essa espécie pode apresentar resistência a diversas classes de antimicrobianos, o que torna o tratamento das infecções muito mais difícil. No caso do nosso achado, não queremos gerar alarme para a população, mas sim destacar [a importância] de encontrar uma bactéria desse tipo, com perfil multirresistente, em ambiente aquático natural. A própria OMS considera Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos [antibióticos com o maior espectro de ação e potência disponíveis] como um patógeno de prioridade crítica para saúde pública, justamente pela dificuldade de tratamento e pela necessidade de novas estratégias de controle e prevenção.
UFSM/FW — Há riscos de contaminação para a população, mesmo após o tratamento da água? De que forma as pessoas podem ser contaminadas?
Gabriela Anzanello — Este estudo não avaliou água tratada da rede pública, e o achado não indica problema de potabilidade, pois a água que chega nas torneiras da população passa por rigoroso processo de tratamento, que inativa as bactérias presentes. Por outro lado, a contaminação dos seres humanos em águas naturais, para diversos patógenos, depende de uma série de fatores. O recomendado é seguir as regras de balneabilidade e evitar o contato com águas naturais as quais não são próprias para banho, evitando principalmente o contato com mucosas e com atenção especial a pessoas imunocomprometidas ou com algum ferimento.
UFSM/FW — Como foi a descoberta da superbactéria?
Gabriela Anzanello — A bactéria não era exatamente o “alvo” inicial da nossa pesquisa; ela foi encontrada durante a rotina de laboratório. Uma das frentes incorporadas ao projeto ClimaRes WaSH envolve o estudo de bactérias com resistência a antimicrobianos, que também é tema da minha tese. No projeto, nosso objetivo é monitorar diferentes grupos de bactérias, principalmente aquelas de importância clínica e sanitária, com um foco mais amplo, buscando conhecer a população bacteriana dos 17 pontos de coleta avaliados na capital. Para nossa surpresa, além de diversas outras espécies, encontramos Acinetobacter baumannii em quatro pontos, uma bactéria considerada prioritária pela OMS quando associada à resistência a determinados antimicrobianos.
UFSM/FW — Qual seu papel nesta descoberta?
Gabriela Anzanello — No meu doutorado, o foco inicial eram as bactérias com resistência a antimicrobianos, mas em diferentes sistemas de tratamento de esgoto no sul do Brasil. Com a aprovação do ClimaRes WaSH, eu e meu orientador, professor Fernando Magalhães, que coordena também o projeto, pensamos em expandir para entender o comportamento desses microrganismos em nível de bacia hidrográfica, investigando também os ambientes naturais que recebem esgoto tratado. Assim, com a parceria com o ICBS/UFRGS, na figura da professora Ana Paula Guedes Frazzon, minha coorientadora, iniciamos as investigações, com o apoio da bolsista do projeto, Daniela Figueiró. Por se tratar de um projeto amplo e pela rotina de laboratório ser bastante extensa, Daniela e eu trabalhamos juntas nessas análises, desde o preparo para a coleta até os testes de suscetibilidade a antimicrobianos.
UFSM/FW — Do que se trata a pesquisa no IPH na qual você é participante?
Gabriela Anzanello — O projeto ClimaRes WaSH, que como comentei é coordenado pelo professor Magalhães, e tem como vice coordenador o professor Salatiel Wohlmuth, também meu coorientador, abrange diferentes frentes relacionadas à água, saneamento e saúde no contexto da resiliência climática. A minha atuação neste projeto e em outros vinculados ao IPH, como o CLIMASANO e o INCT SbN (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Soluções baseadas na Natureza), é monitoramento de diversas Estações de Tratamento de Efluentes (ETE).
Buscamos avaliar como as ETEs com Soluções baseadas na Natureza, como a ETE da CEU, na UFSM/FW, se comparam às ETEs de infraestrutura cinza tradicional, entendendo a dinâmica entre eficiência de tratamento, fatores climáticos e, sobretudo, a presença e remoção de bactérias resistentes a antibióticos e genes de resistência antimicrobiana. Na prática, queremos entender não apenas se uma estação remove matéria orgânica, nitrogênio ou fósforo, mas também como esses sistemas se comportam diante de contaminantes de preocupação emergente, incluindo microrganismos de importância clínica e sanitária.
UFSM/FW — Do que se trata o projeto ClimaRes WaSH Ações integradoras de Gestão, Governança e Soluções baseadas na Natureza para Água, que você integra?
Gabriela Anzanello — O ClimaRes WaSH é um projeto voltado ao fortalecimento da resiliência climática em água, saneamento e saúde. Ele busca integrar pesquisa, inovação, gestão e governança para compreender os riscos associados às mudanças climáticas e propor caminhos mais sustentáveis para o setor de saneamento. O próprio projeto se apresenta como uma iniciativa que une instituições de ensino e pesquisa, agências reguladoras e empresas, aproximando ciência, gestão pública e setor produtivo para apoiar ações de adaptação e mitigação, especialmente no contexto do Rio Grande do Sul e do Brasil.
Trata-se de um projeto bastante amplo e interdisciplinar, que envolve diferentes instituições e pesquisadores. Dentro dele, o Núcleo UFSM/FW tem um papel muito importante, especialmente pela atuação da professora Samara Decezaro e do doutor em Química Bryan Menezes, que contribuem com a experiência em saneamento, tratamento de efluentes e Soluções baseadas na Natureza, agora atuando com mais força em polimento de efluentes, buscando por meio de Processos Oxidativos Avançados atenuar bactérias de importância clínica e ambiental.
Um dos pontos que considero mais interessante do ClimaRes WaSH é justamente a possibilidade de integrar diferentes olhares: engenharia, microbiologia, saúde pública, mudanças climáticas, governança e gestão. O achado da Acinetobacter baumannii entra nesse contexto, porque mostra como os ambientes aquáticos urbanos também precisam ser monitorados quando falamos em saúde, saneamento e clima.
UFSM/FW — Atualmente, entre outros, você também participa do projeto de pesquisa da CLIMASANO, sobre a Resposta Integrada de Saneamento e Saúde em Emergências Climáticas. É possível adiantar alguma estimativa/pré-conclusão de que maneira os eventos climáticos extremos afetam às infraestruturas de saneamento?
Gabriela Anzanello — Ainda estamos em fase de avaliação, então é importante ter cuidado ao falar em conclusões definitivas. Mas o que já é muito claro, tanto pela literatura quanto pela realidade observada em eventos recentes, é que os eventos climáticos extremos afetam diretamente as infraestruturas de saneamento. Chuvas intensas, enchentes e alagamentos podem sobrecarregar redes coletoras, estações elevatórias e estações de tratamento de esgoto.
Esse impacto é ainda maior em sistemas mais antigos ou em locais onde há contribuição de água da chuva na rede de esgoto, como os sistemas de coleta mista. Quando um sistema recebe uma vazão muito maior do que aquela para a qual foi projetado, o tratamento pode perder eficiência, pode haver extravasamento de esgoto, diluição excessiva do efluente e até interrupção operacional. Isso aumenta o risco de lançamento de carga orgânica, nutrientes, microrganismos e contaminantes em corpos hídricos. Nós percebemos isso com muita clareza durante as enchentes de 2024.
Algo interessante é comparar os diferentes tipos de infraestrutura. As infraestruturas cinzas tradicionais são de extrema importância no Brasil, sem dúvidas, mas muitas vezes são mais rígidas e dependem fortemente de bombeamento, energia e controle operacional. Já as Soluções Baseadas na Natureza, como wetlands construídos [sistemas alagados construídos são estações de tratamento ecológicas que simulam ecossistemas de brejos naturais para purificar águas e efluentes], podem oferecer maior capacidade de amortecimento, retenção e adaptação, desde que sejam bem projetadas e bem operadas. Vimos isso nos eventos de 2024, em que algumas ETEs com SbN monitoradas pelo grupo ficaram totalmente submersas, mas logo que o nível da água baixou, voltaram a operar normalmente. Não se trata de dizer que uma substitui completamente a outra, mas sim de entender como essas soluções podem ser combinadas para tornar o saneamento mais resiliente frente às mudanças climáticas.
UFSM/FW — Quando e onde você começou a pesquisar o tratamento de efluentes e o saneamento? De onde surgiu seu interesse por esse tema?
Gabriela Anzanello — Quando eu ingressei no curso de Engenharia Ambiental e Sanitária na UFSM/FW, meu foco era claro: usar minha profissão para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Com o passar do tempo e com a participação de projetos como Iniciação Científica, comecei a trabalhar com a professora Samara Decezaro e com o professor Raphael Medeiros, que agora está na UTFPR. Foram estes dois professores que me apresentaram o mundo do saneamento e tomei muito gosto principalmente pelo tratamento de efluentes, que ainda é uma grande lacuna no nosso país. Já faz oito anos que iniciei na pesquisa voltada à otimização de sistemas de tratamento, sobretudo às SbN para Tratamento de Efluentes e desde o mestrado esta abordagem mais ampla, focada nas relações climáticas e temas de preocupação emergente, como a resistência antimicrobiana.
UFSM/FW — Você se formou em uma universidade interiorizada, a UFSM no campus de Frederico Westphalen. Na sua avaliação, qual a importância dessas instituições no interior do Brasil? De que forma elas contribuem para o desenvolvimento de pesquisas que ajudam a solucionar problemas complexos?
Gabriela Anzanello — Sempre digo para todos que a UFSM em Frederico Westphalen mudou minha vida. Mesmo vindo da segunda maior cidade do estado, estudar no interior foi uma experiência muito enriquecedora, que abriu muitos horizontes. Levar o ensino superior de qualidade e gratuito para o interior do estado é imprescindível. A excelência da UFSM/FW e sua proximidade com o interior do estado faz com que a educação superior seja acessível a grupos que antes não eram. Por estar inserida no dia a dia da região, a UFSM/FW consegue entender quais são as demandas locais, desenvolvendo pesquisa de ponta para necessidades específicas.
UFSM/FW — Deseja acrescentar algo?
Gabriela Anzanello — Gostaria de agradecer aos órgãos de fomento, em especial à FAPERGS, ao CNPq e à CAPES, que tornam possível a realização de pesquisas como esta. Também agradeço a todo o time de professores, pesquisadores e bolsistas do ClimaRes WaSH e do NESA, grupo de estudos do qual faço parte no IPH/UFRGS. E deixo o convite para que acompanhem nossas redes sociais: @nesa_ufrgs, @climareswashbrasil e @inctsbn.
Fonte: Jornal O Alto Uruguai, com informações da Ascom UFSM/FW