Edição Digital Segunda, 17/08/2026 Ler agora
4336 - Segunda
Opinião

Paparicos: cuidados que afagam a alma

Quase sempre associado a excessos, fragilidade e permissividade, o ato de paparicar deveria antes de tudo ser entendido, como uma expressão de afeto e cuidados com alguém. Paparicar se origina do termo de raiz africana quicongo papidika, que significa tratar com carinho excessivo ou mimar. Inicialmente, o termo estava atrelado a ofertar uma pequena iguaria, uma guloseima como forma de agradar. Com o tempo, o ato evoluiu para uma expressão carinhosa de autocuidado, validação emocional e autorregulação. A delicadeza de pequenos gestos, podem modificar o dia de uma pessoa, assim como a rudeza por vezes o estraga. São os afetos intencionais, demonstrados ao ofertar uma xícara de café com um pedaço de bolo para um amigo, ou em preparar o prato predileto do filho por ocasião de sua visita a nossa casa. Sabe aquela mensagem de bom dia, ensejando que vai dar tudo certo? Pois então, são demonstrações saudáveis de afeto e cuidado, que fortalecem vínculos e geram segurança emocional. Em tempos tão solitários de uma sociedade fechada em si, uma mão no ombro é algo valioso. Aquele bate-papo sorvendo um café após o almoço, é tempero para a alma seguir feliz o resto do dia. Assim como o bate canecos de um happy hour no final do dia, sinaliza que vencemos o dia, e isso por si já é uma vitória. Celebrar pequenas conquistas é sinônimo de gratidão pelo que temos, fizemos e somos.

Nas organizações os “paparicos organizacionais” respondem por uma comunicação humanizada, em reconhecer os esforços da equipe e em propiciar um ambiente acolhedor e seguro. Mas a tarefa em criar e manter um ambiente positivo não cabe apenas ao gestor – embora ele deva ser o protagonista em implantar esse modelo de gestão –, mas a todos colaboradores. Ter consciência fraterna, é entender que o mundo não orbita apenas a nossa volta, dando de ombros ao mal-estar alheio. Aliás, a compaixão é o termômetro que nos indica que a nossa felicidade, depende em parte da felicidade coletiva. E aqui não se trata de vivenciar os preceitos da Madre Teresa de Calcutá como muitos podem zombar. Mas em descruzar os braços e fazer algo que possa fazer a diferença na vida de um colega. De um sorriso de bom dia a um abraço acolhedor, a validação de sentimentos vai fluindo, e automaticamente a nutrição do self, que aqui podemos pontuar como uma reposição de energia positiva em um ambiente que remeta a pertencimento.

Em termos de autocuidado e preservação, a regulação emocional está em reconhecer nossos limites, em aprender a dizer “não” sem culpa e em nos dar pequenos prazeres/mimos/paparicos. É praticar o “me mimei” tão aludido em redes sociais, e por vezes tido como supérfluo para aqueles que não se cuidam. Felizmente não há regras em paparicos, sendo a força motriz, a genuína vontade de estar feliz. Se te faz feliz comer um doce no meio da tarde, escolha sua guloseima e seja feliz. Se a leitura é um alimento intelectual que te faz esquecer os problemas cotidianos, não desapegue desse hábito com a desculpa que está sem tempo. Vá lá comprar aquele batom que te faz vibrar e levanta a tua autoestima, ou invista no perfume que te deixa levitar com seu aroma. Pratique hobbies, siga o seu dress-code e o estilo que te faz bem, a mercê da aprovação dos outros. Acima de tudo, insista em remar contra a maré, se tuas escolhas fazem sentido e representam o que você acredita. Porque hoje em dia, chiquê é se cuidar e ser uma expressão autêntica do seu ser, o resto é simulacro.

Bons Ventos! Namastê.

Os textos e artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores, e não traduzem a opinião do jornal O Alto Uruguai e seus colaboradores.