O culto ao prazer de ser
O sujeito moderno não se define mais pelo que é, mas pelo que mostra ser ou parece ser
Vivemos em uma era em que o prazer de ser deixou de estar vinculado à essência e passou a se confundir com a aparência. A lógica contemporânea da “individuação” transforma o egoísmo em qualidade, quase em virtude. O sujeito moderno não se define mais pelo que é, mas pelo que mostra ser ou parece ser. Cada vez mais, para muitos, a vida se converte em espetáculo nas redes sociais, e cada gesto é pensado como uma oportunidade de registro e exposição.
O cotidiano é embalado por uma necessidade constante de criar imagens que representem os “melhores momentos”: a viagem perfeita, o prato sofisticado, o sorriso ensaiado, o melhor look. A internet tornou-se palco de uma encenação coletiva, estimulada pelo algoritmo, onde todos competem por atenção e reconhecimento. O prazer de ser, nesse contexto, não é mais a experiência íntima de existir, mas a validação pública daquilo que se aparenta ser. Esse movimento deve ser observado com preocupação, pois aprisiona o indivíduo e o afasta do mundo real, das pessoas que ama e dos vínculos que sustentam a vida em comunidade.
Essa lógica se reflete diretamente nos sonhos de consumo das novas gerações. Crianças que antes aspiravam ser médicos, professores ou jogadores, hoje desejam ser youtubers ou influenciadores digitais. O status de celebridade migrou e os influenciadores ocupam o mesmo espaço simbólico que antes era reservado a grandes atores, cantores ou jogadores de futebol. Não é coincidência que um outdoor possa exibir lado a lado Neymar e Virgínia Fonseca, como se ambos pertencessem ao mesmo panteão de ídolos.
O culto ao prazer de ser é, portanto, um culto à imagem. A essência perde relevância diante da performance. O indivíduo não busca apenas viver, mas viver de forma compartilhável, editável e consumível. A felicidade não é medida pela experiência em si, pelo tempo com as pessoas que amamos, mas pela capacidade de transformá-la em conteúdo. Estamos caminhando para um mundo em que o tempo de tela se torna mais importante do que o tempo em família, o tempo com os amigos, o tempo de silêncio.
Você pode estar lendo este artigo e pensando que isso não lhe diz respeito. Pode ser um ledo engano. Pense ou consulte no seu celular, quanto tempo você fica preso nele por dia? E quantos amigos novos fez nos últimos dois meses, a partir de um contato pessoal em um evento, em uma viagem de ônibus ou até mesmo em uma conversa casual?
Esse fenômeno social revela uma sociedade em que o individualismo se expande sob a forma de individuação, onde cada um constrói sua narrativa, sua marca pessoal, sua vitrine. O prazer de ser não é mais o silêncio da contemplação, mas o ruído da exposição. O egoísmo, antes condenado, agora é celebrado como autenticidade.
O desafio que se coloca é compreender até que ponto essa lógica molda nossos valores e redefine nossas relações. Se o prazer de ser está cada vez mais atrelado ao olhar do outro, corremos o risco de perder a dimensão mais profunda da existência, aquela que não precisa ser vista, curtida ou compartilhada para ser verdadeira.
Chegará a hora em que teremos mais noção da influência do algoritmo no nosso cotidiano e como ele define o que olhamos, compartilhamos e até o tempo que ficamos no celular. Quando tivermos mais consciência, será a hora de redescobrir o valor daquilo que não cabe em uma foto, do instante que não pode ser editado, da emoção que não precisa ser publicada.
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