Me contratem!
Hoje eu consideraria enviar meu currículo para o Inter ou para o Grêmio, estipular uma multa milionária
Na boa e velha imaginação de criança, a gente quis ser muita coisa na vida. Certamente não foi só comigo que aconteceu isso, por isso citei “a gente” e não apenas eu, pois sei que vários que estão lendo essa crônica pensaram em ser um super-herói ou um trapezista de circo.
Eu pensei em ser trapezista. Achava o máximo ver o cara fazendo aquele malabarismo todo, as acrobacias perigosas e impecáveis, praticamente sem erros. Mas a parte que a inocência de criança não assimilava era o fato de que a apresentação era o ponto final de todo o processo. Eu não mensurava o treinamento intensivo e principalmente a coragem para estar lá no alto executando as manobras para receber os aplausos no fim de cada apresentação.
Tentar ser um super-herói? Quem nunca? Eram muitos desenhos, muita gente boa com poderes que a gente imaginava que também poderia ter. No meu caso, o máximo que consegui foi sair de bicicleta pela cidade para tentar encontrar alguma senhora tendo a bolsa roubada e, assim, perseguir o assaltante. Acabava não encontrando nem ela, nem ele. Menos mal, cidade pequena também tem suas vantagens. Além de que a realidade iria me derrubar e é possível que a senhora do meu imaginário iria se decepcionar comigo.
Pensei em ser baterista de uma banda de rock. Uma situação tipo do trapézio, onde eu só enxergava os aplausos no final, neste caso depois de cada música apresentada em um Rock in Rio. Não analisava uma vida inteira na estrada, monta, desmonta, monta, desmonta, entre outros ossos desse ofício. Por fim, e acredito que foi bom, fiquei mesmo só como ouvinte, curtindo o talento de quem, além de ser bom, se sujeitou a encarar não apenas os prós dessa profissão.
De tudo o que pensei naquele tempo de imaginação fértil, algo que nunca me veio à cabeça foi ser técnico de futebol. Hoje eu consideraria enviar meu currículo para o Inter ou para o Grêmio, estipular uma multa milionária, fazer meia dúzia de salada de frutas e ser demitido. Pronto, vida feita. Ultimamente está fácil. E a culpa não é do treinador que faz a proposta, mas de quem se sujeita e aceita. É como diz aquele ditado: “enquanto um esperto sai de casa, alguém nem tão esperto também sai”.
Me contrate, Inter! Ou me contrate, Grêmio! Se é para fazer algum malabarismo tático (e aqui não envolve nenhum trapezista), me paguem 30 mil por mês e eu faço. Ao menos vocês economizariam em comparação a quem ganha muito para “produzir” a mesma coisa. E nem pensem em chamar o Lisca Doido antes de mim, pois acredito que ele recusaria. E se ele recusasse é provável que voltaria a ser chamado apenas de Lisca. Pensem em mim, foquem em mim, liguem pra mim. Quem chegar primeiro, leva. E saber que na minha infância eu pensava em ser super-herói...
PAPO DE FÉ
“O amor do Senhor não tem fim. Suas misericórdias são inesgotáveis”.
– Lamentações 3:22
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