Edição Digital Segunda, 17/08/2026 Ler agora
4336 - Segunda
Opinião

(In)gratidão: o silêncio que apaga gestos

O antônimo de gratidão – termo utilizado por vezes, como substituto de um “Muito obrigada” – responde por ingratidão, do latim “ingratitudo”. Embora o que se faz para os outros de bom, não possa ser entendido como uma dívida, quando a outra parte não se lembra do que você já fez por ela, enveredamos pelos caminhos tortuosos das falhas humanas. Foram vários pensadores, poetas e filósofos que se dedicaram ao assunto, sendo alguns, réus confessos de sua própria dor. As narrativas mitológicas greco-romanas, de forma recorrente retratavam a ingratidão humana na relação entre deuses e mortais. Para o mitólogo Campbell, uma das funções dessas narrativas era sociológica, como forma de dar suporte e validar uma certa ordem social. A outra, era de cunho pedagógico, voltada para o aspecto comportamental ao orientar sobre o cotidiano. Só que nem Hades – que governava o inferno na mitologia grega -, foi páreo para coibir a debilidade dos homens em seus desagradecimentos. Para Goethe, a ingratidão era “uma forma de fraqueza”, já Cícero, a entendia como o maior inimigo da sociedade. 

Assim, denota-se que desde que o mundo é mundo, quem é ingrato tem memória curta e total ausência de reconhecimento a quem lhe ajudou. Pedir para retribuir então, é comprar briga, já que a reciprocidade não é prioridade. Logo, porque lembrar daquele que: ofereceu morada sem nada cobrar; pagou estudos de quem hoje é doutor; emprestou dinheiro, mesmo sabendo que não ia voltar; renunciou mudanças de vida para amparar; foi pai e mãe dos filhos alheios; enxugou lágrimas em mesas de bar, pagando a conta sem reclamar; lembrar para quê? De resto, adoçamos a alma com a poesia de Raul de Leoni, e seu poema “Ingratidão”:

Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança

E em meu velho quintal, ao sol-nascente,

Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,

Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...

Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,

Pendeu os ramos sobre um muro em frente

E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,

Todas as grandes árvores que em minhas

Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,

Eflorescem nas chácaras vizinhas

E vão dar frutos no pomar alheio...

Bons Ventos! Namastê.

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