Edição Digital Segunda, 17/08/2026 Ler agora
4336 - Segunda
Esporte

Coisas que o tempo não leva

Hoje temos tudo na mão: jogos em alta definição, estatísticas, interatividade

Estava “voltando a fita” dias atrás e me peguei pensando quanto ao futebol de antigamente. Aquelas lembranças que nunca passam, mas que apenas ficam mais silenciosas com o tempo. E aqui nem falo especificamente do futebol profissional, mas do nosso mesmo, de campinho, de calçada, da grama da praça.

Em épocas do ano como a de hoje, quando o outono já mandava no pedaço, as tardes ficavam mais curtas e atrapalhavam a nossa diversão. A gente mal chegava da escola, atirava a mochila em um canto qualquer, pegava um pão com chimia e ao mesmo tempo ia comendo e se deslocando para o campinho para aproveitar o resto da luz do sol e bater uma bola. Para você ver, criança também tinha as suas correrias.

E quanto ao futebol profissional, ver jogo era quase um privilégio. Não tinha essa fartura de hoje, com partidas todos os dias, em todas as telas. A gente esperava. E talvez fosse justamente essa espera que tornava tudo mais valioso. Quando finalmente chegava o domingo, as ondas médias do rádio viravam nossas companheiras e a imaginação fazia o resto. Cada lance narrado era um filme dentro da cabeça. E à noite, nos gols do Fantástico, confrontávamos se era aquilo que imaginávamos e na goleira que acreditávamos ter sido.

Mas o melhor mesmo acontecia longe dos estádios. A nossa Copa do Mundo era ali, na grama da praça, depois que o Seu Juca saía. Ninguém podia pisar ali. Esperávamos ele descer a rua e virar a esquina para bater a nossa bolinha. A parte boa é que o fim da jornada de trabalho dele coincidia com a nossa chegada pós-aula. Perdão, Seu Juca. Ali era o Beira-Rio para uns e o Olímpico para outros. Dependia do coração de cada um. E isso bastava.

Não tinha chuteira cara, não tinha uniforme oficial, mas tinha o Kichute, o Bamba, o tênis do Paraguai que escorregava muito na grama. Também tinha joelho ralado, corpo quente e camisa suada para “ganharmos” lá de vez em quando um resfriado na parte da noite. Mas nada que tirasse o brilho de uma época que infelizmente não volta mais.

Era um tempo mais simples, sem dúvida. Mas não era pobre de nada. Pelo contrário, era rico de essência. Rico de amizade, de criatividade, de presença. Além de um rádio de três faixas, a gente não precisava de muita coisa para ser feliz — só de uma bola, de amigos e um pedaço de mundo onde a imaginação pudesse correr livre junto com a gente.

Hoje temos tudo na mão: jogos em alta definição, estatísticas, interatividade... Mas, às vezes, parece que falta justamente aquilo que não se compra e nem se transmite: o encanto. Porque o futebol de antigamente não era só o que a gente via. Era, principalmente, o que a gente sentia. E isso, por sorte, o tempo não leva. Só transforma em saudade.

PAPO DE FÉ

“Clame a mim e eu responderei e lhe direi coisas grandiosas que você não conhece”.

– Jeremias 33:3

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