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Pesquisa

Suzete Maria Cerutti e o grupo de pesquisa encontraram eficácia em material presente na casca do caule da planta corticeira-da-serra

Publicado em 09/07/2019, última alteração em: 24/07/2019 12:45.

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Um dos grandes problemas de saúde pública que os brasileiros enfrentam na atualidade é o aumento da ansiedade. Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), são cerca de 18,6 milhões de pessoas, ou 9,3% da população do Brasil, que convivem com este transtorno. No mundo todo, este número atinge 322 milhões de pessoas. Mas para dar alento a estes pacientes, uma árvore popular no nosso país pode guardar um dos segredos contra a ansiedade. Uma pesquisa inédita da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriu que compostos extraídos da casca do caule da corticeira-da-serra são capazes de produzir um efeito ansiolítico que pode combater a ansiedade e ainda melhorar alguns tipos de memória. A frederiquense Suzete Maria Cerutti coordena o grupo de pesquisadores e explica como a análise foi iniciada, o que foi feito até aqui e os próximos passos necessários para continuação da pesquisa também em humanos, já que até o momento a casca do caule foi testada apenas em animais.

 

Entrevista

AU – O ansiolítico estudado reduz a ansiedade e ajuda na memória. Do que ele é feito e como é processado para ter a eficácia no tratamento?

Suzete Maria Cerutti – O estudo avaliou o efeito de diferentes compostos extraídos da casca do caule da Erythrina falcata Bentham, que pertence à família Fabaceae – planta conhecida popularmente como corticeira-da-serra, bituqueira, ceibo, bico-de-papagaio, suinã-da-mata e outros nomes, que variam de região para região. Para a extração utilizamos substâncias químicas que favoreciam a retirada dos flavonoides, pois queríamos entender os efeitos destas substâncias, já que conhecidamente nas demais espécies de Erythrina existem alcaloides, que têm efeitos ansiolítico e, em excesso, podem resultar em efeitos indesejáveis, como o prejuízo de memória, entre outros. Dentre as classes dos flavonoides, encontramos majoritariamente flavonas. Algumas flavonas foram testadas e tiveram efeitos positivos contra a ansiedade e melhoraram a memória.

 

AU – Quanto tempo durou a pesquisa? 

Suzete – Iniciou no ano 2000, na Universidade São Francisco (USF), em colaboração com o professor Fernando de Oliveira. Os resultados iniciais nos mostravam que a planta Erythrina falcata tinha efeitos na memória e um promissor efeito ansiolítico. Com a aprovação no concurso público da Unifesp, deixei a Universidade São Francisco, em outubro de 2006, e somente consegui voltar com as análises na Universidade Federal de São Paulo, em 2010. Com isso, foi possível retomarmos as avaliações comportamentais, celulares e moleculares da planta em estudo.

 

AU – O que lhe motivou a estudar sobre o assunto?

Suzete – Como motivação tive dois pontos principais: desconhecimento dos efeitos dessas plantas nos sistemas e o conhecimento popular, que indicava o efeito ansiolítico e sedativo de diferentes espécies de Erythrinas, entre outros efeitos. Então, fui convidada pelo professor Fernando para participar do grupo que avaliava os efeitos das plantas no sistema orgânico, e a minha participação seria efetivamente analisar o efeito no sistema nervoso central. Imediatamente surgiu a ideia de buscarmos substâncias ansiolíticas, ou seja, capazes de reduzir a ansiedade, sem causar prejuízo na memória, como observado após o uso dos ansiolíticos convencionais, especialmente da classe dos benzodiazepínicos – a classe de ansiolíticos mais largamente utilizados pela população em geral. 

 

AU – Você acredita que as medicações tradicionais prejudicam a memória?

Suzete – Eu acredito que qualquer substância, se utilizada indiscriminadamente, de forma abusiva, sem prescrição de dosagem e tempo de tratamento adequado para cada condição, pode causar danos ao sistema. Também acredito que nem sempre o melhor efeito é aquele que tem um alvo específico. As plantas, por serem alvos, têm se mostrado eficazes e com menos efeitos colaterais. O que buscamos é comprovar os efeitos descritos na medicina tradicional, a dose e o tempo de tratamento adequado e, que condições as substâncias podem ter efeitos, pois nem sempre um organismo saudável responde da mesma forma que um organismo doente.

      

AU – A árvore utilizada no estudo é encontrada em que regiões do país e que características ela tem?

Suzete – No Brasil, essa espécie ocorre nas regiões Nordeste (Bahia e Maranhão), Centro-Oeste (Mato Grosso do Sul), Sudeste (Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro) e Sul (Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina), abrangendo os domínios fitogeográficos do Cerrado, da Mata Atlântica e de Araucária. Nestas regiões, um total de 12 espécies do gênero foram descritas. A casca do caule utilizada pelo nosso grupo, nestes estudos, era proveniente da Embrapa do Paraná, que reproduz a planta para análises.

 

AU – Como foi confirmada a eficácia da planta?

Suzete – Os dados publicados até o momento se referem aos efeitos em animais. Estudamos em ratos Wistar machos adultos jovens, mantidos em condições padronizadas e todas as metodologias utilizadas foram aprovadas pelo Comitê de Ética, inicialmente da USF e, posteriormente, da Unifesp. Os efeitos são específicos para os testes que usamos. Para avaliar a eficácia das substâncias em humanos ainda é necessário avançarmos com as pesquisas.

 

AU – Qual o próximo passo, depois desta descoberta? Ela já foi aprovada pelos órgãos competentes? 

Suzete – Todas as etapas até o momento passaram por aprovação prévia em Comitê de Ética e no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (Sisgen), pois precisamos ter estes aceites para acessar o patrimônio genético da planta. Até o momento, tivemos apoio da Fapesp, uma agência de fomento de São Paulo, que financia os maiores projetos de pesquisa, e da Capes, órgão do governo federal que fomenta os programas de graduação e as bolsas dos alunos vinculados. O próximo passo é buscar mais verba para a continuidade da pesquisa, para manter os alunos realizando as ações em laboratório com bolsas. As atividades em laboratório – destaco aqui área de neurociência – requerem uma rotina diária que envolvem acompanhamento dos animais, tratamentos e análises celulares e moleculares, que têm um custo de materiais e equipamentos. Sem verba para pagamento de bolsas, a continuidade é improvável. Estamos lutando para que isso não interfira na continuidade e que possamos avançar e avaliar os efeitos posteriormente, em uma população específica de voluntários. 

 

Colaborou:

Suzete Maria Cerutti

A professora-doutora saiu de FW em 1981, para estudar Ciências Biológicas em Passo Fundo. Em 1986, foi a Campinas fazer mestrado em Fisiologia e Biofísica nos laboratórios de Sistemas Neurais e Comportamento, onde também realizou o doutorado (1992- 1997). Em 1997, fez pós-doc na Universidade de São Paulo (Anatomia Humana – Neuroanatomia). Paralelamente, ingressou na docência na Universidade São Francisco, em 1992, onde permaneceu até 2006, quando saiu para ir para a Universidade Federal de São Paulo, onde teve participação ativa na construção do campus de Diadema – foi a primeira coordenadora do curso de Ciências Biológicas, de 2007 a 2010. Coordenou a Câmara de Pós-graduação de 2013 a 2015 e desde outubro de 2018 coordena o Programa de Pós-graduação em Biologia Química. Em 2016, fez concurso para livre-docência em neurociências.

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