Rompimento da Barragem

Engenheiro mecânico Jéfferson Luiz Mendonça Junior trabalha com balões que sobrevoam áreas atingidas monitorando trabalho dos bombeiros

Publicado em 11/02/2019, última alteração em: 11/02/2019 09:05.

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Serrano Nº11

A noite caía em Brumadinho, no Estado de Minas Gerais, quando o frederiquense Jéferson Luis Mendonça Júnior, de 22 anos, se preparava para mais um cansativo turno de 12 horas trabalhando no apoio aos bombeiros que realizam o resgate das vítimas da maior tragédia socioambiental recente brasileira. Entre coordenar voos com balões aéreos equipados com câmeras e realizar a manutenção dos sistemas que coordenam o funcionamento do aparelho, o recém-formado em Engenharia Mecânica concedeu entrevista ao AU contando as dificuldades, aprendizados e o cenário com o qual se depara diariamente desde o dia 31 de janeiro, quando foi chamado às pressas para somar forças e contribuir com as buscas e o monitoramento da região mineira afetada pelo rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão.

Depois de passar janeiro trabalhando na empresa da família, em Frederico Westphalen, Juninho, como é conhecido, foi chamado pela direção da empresa paulista onde estagiou em 2018 para ir até Brumadinho. Especializada em fornecer serviços através da “elevação de equipamentos por plataformas aeronáuticas”, a companhia precisava do frederiquense com urgência, e ligou para ele pedindo que comparecesse no dia seguinte em Minas Gerais. Prontamente, o engenheiro se deslocou ao distante cenário que antes era visto apenas pela televisão. A missão não era fácil.

Na prática, Júnior trabalha operando e monitorando balões que transportam câmeras. Assim, ele e sua equipe se revezam durante 24 horas sobrevoando toda a região afetada pelo rompimento da barragem. A ação tem por objetivo principal localizar possíveis áreas de resgate e fornecer apoio aéreo para os bombeiros que trabalham em solo. Quando os noticiários falam em equipes de apoio dos oficiais, é do serviço realizado por Júnior a que se referem, também. Operando na chamada “equipe infravermelho”, o frederiquense e outros dois colegas passam das 19 horas às 7 horas com os olhos voltados para as telas. “Nosso trabalho é prover imagens, identificação visual, segurança para os bombeiros e localizar pontos para eles iniciarem os trabalhos no dia posterior”, comenta Júnior.

Angústias compartilhadas

A saudade de casa certamente não é um problema para Juninho. Os anos estudando em Passo Fundo e os nove meses de estágio em São Paulo, que deram um novo sotaque ao gaúcho, prepararam ele para ficar longe de casa por longos períodos. Mas a vida exigiu mais do frederiquense. Nada, nem ninguém, podia prepará-lo para encarar tamanha tragédia, ainda mais em um momento delicado para a empresa familiar. Vendo famílias sofrer pela perda de entes, os sentimentos afloram facilmente. “Você que ‘tá’ aqui no meio, em uma tragédia dessas, percebe que todas essas pessoas estavam trabalhando. Fica a lição de aproveitar o dia, ficar perto das pessoas que você ama sempre. Você pode estar trabalhando, fazendo o que é certo e perder a sua vida, deixar tudo o que mais ama para trás. É muito complicado, é difícil falar, é muito pesado”, relata.

Aliás, se reaproximar dos parentes já tem data marcada para Juninho. Dia 14 ele retorna para a região, mas apenas para tomar um fôlego. Sem data para terminar, as buscas seguirão em Brumadinho, e o serviço do engenheiro será necessário em breve. Quinze dias depois de desembarcar em FW ele deve retornar para Minas Gerais, sem previsão de retorno.

O som dos veículos envolvidos na operação manobrando ecoava nos áudios enviados por Júnior para o AU. Conforme o frederiquense, o movimento em Brumadinho é intenso, é diário e é desgastante física e emocionalmente.

– Estar no meio de uma tragédia dificulta muito o trabalho. São muitos veículos circulando, tem segurança redobrada, e também são muitas perdas para toda a região, Brumadinho, Belo Horizonte... É muito triste, e é muito difícil trabalhar em um cenário como esse – explica Juninho, cuja missão representa o primeiro trabalho na empresa como profissional.

Até onde se sabe, nenhuma das 157 vítimas diretas da tragédia de Brumadinho, até o momento, são de FW ou da região. Isso não significa, porém, que o Médio Alto Uruguai não esteja comovido ou consternado com o ocorrido. As consequências são nacionais e as histórias decorrentes também, pertencem ao mundo. A tragédia não foi em FW, mas o município está na tragédia e oferece uma das poucas coisas que podem ajudar o povo local: apoio.

Texto: João Victor Cassol

 

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