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Unopar nº 9

Morgana Rubini

"Apesar de não terem entendido a minha escolha no momento, eles me permitiram tentar"

Publicado em 03/11/2018.

Por:



Serrano Nº11

Tudo se encaminhava para a família Rubini, de Rodeio Bonito, ter uma filha médica. O cursinho de pré-vestibular em Medicina já estava em andamento, no momento era a melhor forma que ela encontrou para pôr em prática o seu desejo de ajudar pessoas. No entanto, Morgana Rubini, hoje com 25 anos, se deparou com um novo rumo em sua escolha profissional. Depois de alguns intercâmbios, ela descobriu sua paixão por contar histórias e foi cursar Cinema na Full Sail University, uma faculdade de entretenimento e artes na Flórida. “Dizer aos meus pais que o meu chamado não era Medicina e sim Cinema, foi muito difícil, porém eles sempre me apoiaram e eu sou muito grata por isso, não foi fácil decidir ir para tão longe, e acredito que para eles foi mais difícil ainda. Apesar de não terem entendido a minha escolha no momento, eles me permitiram tentar. A reação foi extremamente importante, me dando mais confiança para seguir o meu coração. Isso me fez perceber que é o amor dos meus pais que me impulsiona e eu devo tudo a eles”, frisa Morgana.

 

A paixão pelo Cinema

A paixão de Morgana por Cinema foi despertada em uma viagem feita com seu irmão – o cirurgião-dentista Alessandro Rubini – para a Califórnia, onde teve a oportunidade de conhecer a cidade cinematográfica e os estúdios de gravação da Universal Studios. “Nunca senti uma euforia tão grande na minha vida, era mais que felicidade, era pertencimento. Eu não queria sair de lá”, conta a rodeiense, filha de Edy e Valdir Rubini. Apesar da viagem com o irmão ter despertado em Morgana um novo olhar, a jovem precisou de mais um empurrãozinho para confirmar sua escolha. “No ano seguinte decidi ir para Los Angeles fazer um curso na área de cinema. Estudando na New York Film Academy, finalmente confirmei meu amor pela sétima arte. É a conexão emocional com a arte de contar histórias através de imagens que me mantém completamente deslumbrada por esse mundo. Filmes têm o poder de nos ajudar a compreender melhor algumas situações pelas quais passamos, nos fazendo ter pontos de vistas diferentes e abrindo novas formas de pensamento, nos auxiliando assim a entender com mais facilidade uns aos outros”, disse.

Estar em um estúdio de gravação e participar das etapas de criação de um filme são como mágica para a gaúcha. “É difícil explicar, você tem que sentir, é incrível”, afirmou.

 

O Cinema e os próximos passos

Morgana, que mora a cinco minutos dos parques da Disney e estuda em uma cidade chamada Winter Park, diz estar certa da escolha que fez e conta que nos Estados Unidos a indústria cinematográfica é gigantesca, tendo Los Angeles como seu polo principal, que será o próximo destino da rodeiense. “São muitas as especialidades e habilidades que fazem parte do nosso mundo, e a minha faculdade é voltada para ensinar um pouco do que é e o que cada departamento envolvido faz no processo de trazer um filme à vida”, esclarece. Já quanto ao caminho a seguir após a formação, que ocorrerá em fevereiro de 2019, Morgana tem um leque de possibilidades.

– Gosto muito da parte de pré-produção, da organização e logística. Um dos meus objetivos é me tornar uma produtora cinematográfica, uma função que abrange a parte mais empresarial da criação. No entanto, o que eu mais amo sobre essa posição é o envolvimento; eu faria parte do começo do projeto até a sua finalização. Devo essa percepção a um dos mais prestigiados festivais de cinema do mundo, o Festival de Cannes, na França, onde tive o privilégio de estagiar na maior empresa independente de distribuição dos EUA, a Lionsgate. Pude ver de perto como é a relação entre a parte criativa e a de negócios na indústria do entretenimento. Foi uma das melhores experiências que tive na vida. Direção é outra opção que pretendo experimentar futuramente. Eu queria fazer Medicina para ajudar as pessoas, mas o Cinema me encantou e me fez compreender que há outros caminhos que podemos seguir, e poder abranger milhões de pessoas com algo significativo é extremamente importante para contribuir com o bem-estar e a evolução humana – finaliza.

 

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

AU - Onde mora atualmente?

Morgana: Moro em Kissimmee, na Flórida.

 

AU - Você saiu de Rodeio Bonito e foi para a Flórida?

Morgana: Eu morava em Passo Fundo por alguns anos, onde fazia cursinho com o intuito de passar no vestibular do curso de Medicina.

 

AU - Você trabalha em algo aí?

Morgana: Não, eu faço Faculdade de Cinema, estou aqui com visto de estudante (I-20), o que não me permite legalmente exercer nenhuma atividade remunerada.

 

AU - Você faz Cinema aí. Tem alguma outra formação?

Morgana: Sim eu estudo Cinema, mas não tenho nenhuma formação prévia. Antes de decidir vir para cá e cursar o que faço, estava me preparando para passar em Medicina.

AU - Quando se forma em Cinema?

 

Morgana: Curso Film Bachelor’s Degree, o que comparando com faculdades no Brasil equivaleria à faculdade de Cinema, na Full Sail University, e me formo em 8 de fevereiro de 2019.

 

AU - Pode nos explicar um pouco sobre o seu curso?

Morgana: A indústria cinematográfica é gigantesca. O tamanho de uma equipe, aqui nos Estados Unidos, necessária para a criação de um longa-metragem é absurdamente grande, vou usar como comparação um filme conhecido que é um sucesso mundial e que tem umas das maiores equipes para a sua produção: Vingadores: Guerra Infinita, a equipe por trás desse sucesso de bilheterias conta com mais de 300 trabalhadores e um Orçamento inicial de quase 400 milhões de dólares. São muitas as especialidades e habilidades que fazem parte do nosso mundo, e a minha escola é voltada para ensinar um pouco do que é e o que faz cada departamento envolvido no processo de trazer um filme a vida. Vou dividir nas partes e depois posso explicar um pouco de cada uma.

Desenvolvimento: desenvolvimento da ideia, ou seja, quando a historia é comprada e passa por um processo de transformação e adaptação para se transformar no roteiro que vemos na telinha.

Pré-produção: parte que organiza o plano a ser executado nas filmagens, onde todo o estilo, humor, composição, logística do filme é decidido e umas das partes mais longas e meticulosas do processo. Pré-produção é a porção que recebe a culpa quando o projeto final não fica bom.

Produção (gravação): parte da execução das ideais criadas durando o desenvolvimento em conjunto com o que foi organizado e decidido na Pré-Produção.

Pós-Produção: Onde o produto é finalizado, parte da edição da filmagem. Outro processo demorado, que é crucial na determinação da qualidade do material obtido.

Essas são as partes que nós estudamos no meu curso, que entramos mais em foco. O que acontece, dentro de cada uma dessas 4 categorias há uma imensidão de pequenas especializações e o que acontece aqui é que você acaba se identificando com um processo mais do que o outro e é onde tu focar o teu estudo, no meu caso eu me identifiquei com dois Pré-Produção e Produção. Eu gosto demais da parte de logística e organização que leva a preparação de um filme, muito porque eu cresci vendo meus pais fazerem negociações e lidarem com problemas que surgem quando se trabalha com pessoa e expectativas, e essa é uma parte que veio muito natural pra mim aqui, durante meu curso. Eu gosto de organizar e manter as tarefas distribuídas e cuidar para ver se o processo está sendo executado no tempo que foi determinado para o trabalho. No entanto a parte da Produção é maravilhosa também, estar no set de filmagem, fazer parte do processo que traz vida para todos os planos feitos previamente é inexplicável, os sets de filmagem têm uma energia incrível e tudo é feito meticulosamente, mas ao mesmo tempo tudo acontece como se fosse magica, é difícil explicar, você tem que sentir, é incrível! Uma coisa que aprendemos muito aqui é o respeito por cada parte do processo e também por cada posição no set, cada um é responsável por uma porção a ser feita e ninguém pode ultrapassar as suas obrigações, porque se não vira uma zorra. Cada um cuida do seu, e o tudo flui perfeitamente. Filme é um trabalho em comunidade, vamos comparar filme com um quebra cabeça, cada posição é uma peça, igualmente importante para o resultado final ser a formação de uma imagem perfeita. Nada acontece se as pessoas não trabalham juntas e com o mesmo objetivo. É muito detalhe envolvido na criação de um filme, impossível fazer sozinho, confiança no trabalho do colega é importantíssimo, porque cada um tem que focar inteiramente na sua peça do quebra cabeça, para que no final, quando cada um traz o seu pedacinho e junta com o dos outros, forma um lindo quebra cabeça.  Outra coisa que aprendemos, é agilidade. Tempo é dinheiro, e nessa indústria, tempo é muito dinheiro. Se uma produção, como a da Marvel, que estávamos analisando antes, tem que parar por, vamos dizer 1 hora, porque alguém não cuidou do seu pedaço do quebra cabeça como deveria e ele não esta encaixando no resto das peças, o prejuízo começa nos milhares de dólares, porque como falamos a equipe conta com muita gente e cada pessoa, recebe um valor por hora, e não é um valor barato. Digamos, na Pré-Produção foi planejado fazer tantas Cenas do roteiro naquele dia, o dia de trabalho é de 8 horas (muda em cada estado), a partir das 8 horas se as pessoas ainda estiverem trabalhando elas passam a ganhar metade do dobro do  honorário que ganhariam, a partir de 12 horas elas passam a ganhar o dobro e assim por diante, pensa, multiplicando isso para uma equipe de 300 pessoas? Normalmente já trabalhamos mais de 8 horas, é sempre em torno de 12 horas. Mas passar a pagar mais que dobro para uma equipe de 300 pessoas porque algo deu errado, fora mais aluguel da locação que estamos gravando, é muito prejuízo, então somos ensinamos desde a faculdade que a gente não deve andar para pegar coisas, a gente tem que “correr” toda vez que o assinante do diretor avisa que precisam de algo, o departamento responsável por aquele “algo” deve estar em prontidão para trazer o mais rápido possível o que é necessário, para evitar varias pessoas saindo ao mesmo tempo para pegar aquele “algo” sempre a pessoa que vai fazer a “corrida” tem que identificar que ela está se responsabilizando por isso, e usamos o termo “Flying” que se traduz, literalmente, para “voando”. Exemplo: primeiro assistente de direção; fósforo para a vela; departamento de arte; “Flying”.

Nesse momento é que você vê o nível de comprometimento do departamento de arte, e são nesses momentos que determinam se você será contratado novamente ou não, ou muitas vezes, até demitido. Se a pessoa está cuidando como deveria da peça do quebra cabeça do departamento dela ela deveria já estar antecipando que a vela que está no set poderá ser acesa em algum momento do dia, o fósforo já deveria estar com ela, esperando por essa chamada. No entanto, se o fósforo não está em mãos a produção inteira para na espera dessa pessoa encontrar um fósforo. (Exemplo simples, mas essa situação varia, dependendo de cada departamento, podia ser a bateria da câmera, uma luz, uma bandeira que controla luz, a comida que vai ser servida no intervalo, qualquer coisa, da mais pequena para a mais catastrófica). O que cada departamento tenta evitar durante gravações é ser o complemento dessa frase: “Hold for...” (tradução: “Segura/Espero por...”). No caso do exemplo seria, “Hold for art” (Tradução: “Espera pela Arte”).

Na Full Sail, eu tive aulas ensinando, como escrever um roteiro, como apresentar um projeto para vender uma ideia, como dirigir atores, como manusear uma câmera (entender a função de diferente lentes, como compor uma imagem, como configurar as funções da câmera para diferente ambientes e situações), apendi como mixar áudio (como usar microfones e saber qual modelo é melhor para qual situação, como editar áudio, como criar barulhos que vemos nas imagens, isso se chama Foley, a maioria dos sons que ouvimos em filmes são falsos, foram criados na pós-produção, tem toda uma equipe responsável por isso, é interessante ver os matérias que eles usam para “criar” sons simples, como o de um porta fechando”), aprende como funciona distribuição elétrica (a lidar com voltagens altíssimas e como ter cuidado com isso, as luzes que não vemos nos filmes, que são usadas para iluminar a cena, são muito potentes, uma tomada normal das nossas casa não suportaria o poder de muitas das luzes, é algo que o departamento elétrico tem que tomar muito cuidado, e a gente aprende isso aqui), aprendemos também a como manipular a luz (usamos muitos difusores, gel, parecidos com papel celofane, de diferentes cores para criar estilos diferentes na imagem, usamos bandeiras para criar sombras de diversas formas), aprendemos a editar (edição de vídeo, em especifico, a criar efeitos especiais nos filmes que fizemos). Essas são algumas das partes que aprendi aqui na faculdade, tem muito mais, e mais detalhadas, mas aí é muita coisa para comentar.

 

AU - Como foi a decisão de ir para a Flórida?

Morgana: Eu moro no Estado da Flórida, em uma cidade chamada Kissimmee, minha casa fica uns cinco minutos dos parques da Disney. Minha faculdade fica numa cidade chamada Winter Park, aproximadamente uma hora da minha casa. Eu sempre tive um interesse muito grande pela língua inglesa, quando eu morava em Rodeio eu fiz um tempo de cursinho de Inglês, mas de longe suficiente para ter proficiência, por isso depois que mudei de Rodeio e não tive mais tempo de estudar Inglês, comecei a assistir muito filme e seriado, foi o que me ajudou a manter o “estudo”. Fiz vários intercâmbios para estudar e aperfeiçoar a minha gramatica. Quando eu decidi que queria fazer cinema, e sabia que queria cursar aqui nos Estados Unidos, eu escolhi um curso de Inglês, em Fort Lauderdale pra me preparar para a prova do TOEFL, que é uma das exigências nas aplicações para faculdades aqui, pra estrangeiros comprovar um certo nível de inglês. Durante esse tempo que fiquei estudando eu descobri uma outra prova de proficiência, chamada Cambridge Exam, a qual eu gostei muito mias, foi onde eu evoluí mais o meu nível de inglês e consegui uma fluência maior. Então eu tenho dois certificados, o de Cambridge e o TOEFL. Enquanto eu estava nessa escola, eu ouvi falara da Full Sail, e achei muito interessante o programa deles. Diferenciado, voltado 90% para pratica, e eles copilaram 4 anos de uma faculdade normal em dois anos. O que eles fazem é não dar férias longas como outras faculdades aqui dão e também eu tenho aula de domingo a domingo e fico na escola entre 12-15 horas por dia. É extremamente puxado, mas compensa para receber um diploma mais rápido e poder pensar em especializações ou mestrado. Esse foi o motivo porque vim aqui, mas logo que eu me formar quero mudar para Los Angeles, que é o núcleo de cinema aqui dos Estados Unidos.

 

AU - De onde surgiu a vontade de cursar Cinema?

Morgana: Eu descobri um tanto que tarde. Quando eu não tinha tempo de estudar inglês e eu comecei a usar filmes e seriados para continuar meu aprendizado, foi uma paixão que começou tarde. Eu passava muito tempo em casa porque eu tinha que estudar, e para descansar ou para me animar, ou ate mesmo motivar quando eu achava que tudo estava completamente perdido, que eu estava muito cansada para estudar, desanimada eu assistia algo para me animar, eu sempre tinha uma lista de filmes ou seriados que eu sabia que ia despertar certas emoções em mim e eu usava eles para evoca-las, sempre de acordo com o que eu achava que iria me ajudar a seguir forte. E por eu gostar muito desse mundo, quando eu fui para Califórnia pela primeira vez, em uma viagem que eu fiz com o meu irmão, nós fomos visitar o parque da Universal Studios como eu sabia que eles tinham a cidade cinematográfica e os estúdios junto com o parque eu decidi adquirir um ticket especial que eles tem que da acesso a essas partes. Eles oferecem um guia e você consegue ver algum dos estúdios e caminhar nessa cidade cinematográfica, eu nunca senti uma euforia tão grande na minha vida, eu não conseguia parar de sorrir e eu lembro como se fosse ontem, comentando como o meu irmão como eu me sentia e ele dizendo que fazia sentido porque estávamos em um parque de diversão e todo mundo fica feliz em um lugar como aquele, mas era mais que felicidade, era pertencimento, eu não queria sair de lá, ai foi quando o Ale me disse: “Eu nunca te vi ficar tão feliz por ver um hospital, acho que tu deveria se mudar pra cá e virar guia do parque.” Aquilo nunca mais saiu da minha cabeça, eu passei um tempão pensando no significado daquela frase, demorou um tempo até eu entendi que não era literalmente o lugar, mas o que o lugar representava. No outro ano eu decidi fazer um intercambio em Los Angeles, mas ao invés de estudar inglês eu ia fazer um curso na área de cinema. Foi quando eu achei a escola New York Film Academy, e eles ofereciam programas de um mês, no qual eles introduziam o currículo da faculdade. Foi o que eu fiz, passei um mês estudando com eles, e a escola era em frente ao Estúdios da Universal e do lado dos estúdios da Fox. Melhor ainda, minha escola tem uma parceria com a Universal e a gente usava a cidade cinematográfica deles para gravar nossas cenas, foi lá que eu tive certeza. Eu achei minha paixão. Voltar para casa e ter a conversa com meus pais de que eu tinha entendido tudo errado, que meu chamado não era em medicina, e sim em cinema, foi muito difícil. Eu sou muito grata por tudo o que a minha família fez por mim, meus pais sempre me apoiaram em tudo, me levavam em todos os vestibulares porque eu queria estar perto deles, não era fácil, era super cansativo, mas eles nunca reclamaram. Eu me senti culpada por um tempo antes de eu falar para eles que eu tinha tomado essa decisão, eu tinha medo de desaponta-los. Foi um investimento muito grande a preparação para o vestibular e eu ia jogar tudo “fora” por algo tão subjetivo, um mundo que eu não conhecia. Eu tive que pensar muito, logisticamente, como aquilo ia funcionar antes de conversar com eles, e quando sentamos, eu tinha a resposta para todas as perguntas que eles iriam me perguntar. Não foi fácil pra mim, mas eu acredito que para eles foi mais difícil ainda, apesar de não entender o que era, e como eu amei tanto eles me deixaram vir e tentar. Isso foi muito importante pra mim, mesmo eles não entendendo o que era cinema, e como eu iria conseguir cursar uma faculdade fora do país, eles me apoiaram. Eu sempre sinto que a confiança deles é em mim, não nas minhas decisões, é o amor deles pele minha felicidade, pelo me ver bem, e isso me da muita força, eu quero que eles saibam que essa decisão foi certa e que eu estou realizada. Eu devo tudo a eles.

 

AU - Quais são os seus objetivos cursando Cinema?      

Morgana: Retribuir. Eu passei por situações muito ruins na minha vida, especialmente quando eu estava fazendo cursinho para Medicina. Algumas das series que eu assisti naquele tempo foram responsáveis por muitas descobertas pessoais, os filmes me ajudaram a me ajudar. Me ajudam até hoje. Sempre há uma mensagem por traz de tudo que nessas histórias, e eu sempre achei que essas mensagens falavam comigo, questionavam o que eu era e o que eu queria ser, como pessoa, e como individuo vivendo em sociedade. Meu objetivo é continuar criando, permitindo que essas mensagens continuem acontecendo, para que mais pessoas sejam beneficiadas com elas, para que mais pessoas se conheçam. Mas também, se a mensagem chegar a aqueles que não estão prontos para ouvi-la que pelo menos o conteúdo as entretenha, as faça esquecer dos problemas e dificuldades que estão passando, que permita a risada ou ate mesmo o choro acontecer, nem que por alguns minutos, que seja uma alivio, um escape. Eu achava que para eu poder ajudar as pessoas do jeito que eu queria, eu deveria ser medica. Pouco eu sabia que há tantas outras coisas que podemos fazer que é igualmente importante e significante para o bem-estar dos outros.

 

AU – Qual a sua área de atuação com esse seu currículo depois de formada?

Morgana:  Como o currículo da Full Sail é tão amplo e tão voltado para praticar o que aprendemos eu poderia atuar em qualquer área da indústria que eu quisesse, eles nos preparam para isso. Não importa que parte do quebra cabeça queremos atuar, sempre haverá um processo evolutivo para chegar onde queremos, em qualquer área que escolhermos primeiro teremos que começar como assistentes para adquirir experiência, especialmente, porque nessa indústria existem associações que controlam  como as coisas se encaminham e  há regras para você fazer parte, cada posição que você escolhe tem uma regra diferente de quantas horas de experiência você tem que ter para ser apto a trabalhar na parte que você deseja. Eu gosto muito da parte de Pré-produção, da organização e logística, um dos meus objetivos é me tornar uma Produtora Cinematográfica que abrange a parte mais empresarial da criação, mas o que eu amo sobre essa posição é o envolvimento, eu faria parte do começo do projeto até o final onde o produto fica pronto para a distribuição. Produtores são responsáveis por achar as historias que eles acham que devam ser contadas, adquirir direitos cinematográficos da mesma, escolher a equipe ideal para trazer o projeto a vida, escolher quem vai ser o diretor(a), coordenar a adaptação da história para roteiro, ter a palavra final de como a edição deverá ser executada, e também é quem encontra pessoas ou empresas interessadas em investir monetariamente na ideia. Dentro da ideia de Produtores Cinematográficos há inúmeras especializações e especificidades que ramificam a posição em diferentes títulos e com diferentes obrigações, mas por enquanto, estou focada na parte mais ampla do trabalho, mais tarde decido que caminho me atrairá mais. Outra parte que recentemente tem despertado meu interesse é na de direção. Eu sempre gostei muito de psicologia comportamental. Eu sempre li bastante sobre o assunto e também sempre gostei de observar o comportamento das pessoas e tentar entender porque agimos do que jeito que agimos, eu acho isso fascinante. E dirigir atores engloba a ideia de entender comportamentos e saber como expressa-los em formas diferentes. Eu estou na reta final do meu curso, e o nosso “TCC” é chamado de projeto final o qual precisamos criar, desenvolver e produzir um curta metragem. Cada pessoa da sala escolhe a posição de sua preferencia e aplica para tal, como se estivéssemos sendo considerados para um emprego. Eu escolhi dirigir meu projeto, eu tive que criar uma história e fazer uma apresentação para meus instrutores de porque eu deveria ser escolhida entre todos para dirigir esse nosso Projeto Final, foram algumas etapas, eu fui entrevistada por 6 instrutores ao mesmo tempo. Meu projeto acabou sendo escolhido e eu estou no processo de Pré-produção. Todos os trabalhos e curtas que realizamos na escola vão passar na nossa formatura, a escola aluga um cinema próximo para passar todos os filmes dos graduados antes da cerimônia.

 

AU - Como são os estudos aí e como é para você estar estudando na Flórida?

Morgana: É bem puxado. A faculdade em si demanda muito dos alunos. É bem envolvente e consume todo o meu tempo. Além dos projetos de classe que são obrigatórios e as aulas, eu acabo ajudando em projetos extracurriculares, produções independentes que acontecem na escola. Eu também sou a coordenadora de um programa que a minha faculdade oferece que se chama “Por Traz das Cenas”, que acontece em um domingo todo mês. Eu sou responsável por organizar uma equipe de 40 alunos, distribuir posições para eles e supervisionar a criação de um curta, passamos em torno de 12 horas nesses domingos gravando cenas de um roteiro, com atores profissionais, o que acontece de diferente é que a escola abre as portas dos nossos estúdios para pessoas que estão interessadas em ingressar no curso de cinema, eles tem o direito de ver como fazemos as filmagem e de conversar com cada pessoa da nossa equipe para entender como cada posição funciona. Meu objetivo é tirar o máximo de proveito das estruturas da Full Sail, o lugar é incrível, nós temos uma cidade cinematográfica, que inclui fachadas arquitetônicas de estilos diferentes de prédios dos Estados Unidos e também de outros países. Há no total 8 estúdios para filmagem, em cada estúdio temos em torno de 2-4 sets diferentes. Temos que construir nossos sets por conta própria e temos acesso a uma marcenaria completa, é incrível, dois dos nossos instrutores de arte foram responsáveis pelas construções das atrações dos parques da Disney e da Universal Studios. Sem mencionar os equipamentos de som, imagem, luz que possuímos. Temos acessos há câmeras que custam meio milhão de dólares (usamos para filmar o nosso Projeto Final), meus instrutores são pessoas renomadas na indústria do entretenimento. Eu acabei de terminar uma apresentação artística para um deles, Kevin O’Neill, ele já ganhou vários prêmios por excelência em direção. Ele era um dos instrutores que me entrevistou para o meu projeto final, ele amou a minha apresentação e pediu para eu criar uma para ele, ele esta no processo de achar investidores para um novo curta que ele vai produzir em janeiro, ele levou o projeto para produtores em Los Angeles e usou a minha apresentação para vender a ideia. Foi uma mudança muito radical para mim e para os meus pais, com a mudança de curso e país, eu decidi que eu precisava mostrar para a minha família que essa decisão que eu tomei foi muito focada e certa, o jeito que eu achei para mostrar foi através da minha dedicação, quando eu entrei na escola eles estavam oferecendo bolsas para alunos exemplares, eram quatro bolsas diferentes e todas você deveria fazer uma redação em determinado assunto para concorrer aos descontos. Eu ganhei as quatro, no total foram quase 20 mil dólares de bolsa (desconto) na minha mensalidade total. Durante o resto da faculdade eu sempre dei muita importância para as minhas notas, eu recebi um convite da “The Nacional Society of Collegiate Scholars”, que é uma sociedade de alunos exemplares, no qual você só recebe o convite para participar se as tuas notas são extremamente altas, na qual agora eu sou membro.

 

AU - Como é o incentivo da família e a saudade de casa?

Morgana: Meus pais me apoiam muito, eu jamais conseguiria estar aqui sem o suporte deles. A saudade é gigante, eu converso com a minha mãe todos os dias, por videochamadas. Muitas vezes estou superocupada e não posso conversar mas eu ligo pra ela se ela está trabalhando ela coloca o telefone na mesa em direção a ela e eu faço e mesmo e ficamos trabalhando juntas, tiramos um intervalinho e conversamos um pouco, depois voltamos a trabalhar, maioria das vezes quando eu paro para cozinhar, se tenho tempo de comer em casa ela fica comigo durante o processo, nos adaptamos conforme a rotina, mas nunca deixamos de falar. Essas videochamadas ajudam muito, porque parece que a pessoa está ali contigo, tomamos chimarrão juntos, quando meu pai senta para conversar com a gente também, ela mostra a minha cachorrinha “Blair” e assim vamos. Desde que eu vim para cá eu não voltei para o Brasil, como eu disse eu não tenho férias longas, a mais longa que tive foi de duas semanas e eu tive a oportunidade de ir para o Japão com a minha faculdade conhecer algumas empresas no ramo do entretenimento, foi uma experiência incrível, o país é muito lindo e tem uma energia muito boa, me trouxe muita paz de espirito, quando eu tiver mais tempo quero voltar e levar meus pais para conhecer, é um lugar que eu recomendaria conhecer. Em maio desse ano eu tive a oportunidade de ir para a França, no Festival de Cinema de Cannes, eu e o meu namorado Dylan, que também é meu colega, fomos selecionados por um projeto americano para fazer um estágio com empresas Norte Americanas em Cannes. O programa é proporcionado pelo Pavilhão Americano “The Amerrican Pavillion”, que permite estudantes acessarem o perímetro do festival e estagiar para grandes empresas do mundo do entretenimento pelo período do festival.

 

AU - Como é esse programa?

Morgana: Você passa por um processo seletivo. Primeiro você precisa mostrar as tuas notas, você só é considerado acesso a aplicação se você tem notas boas, depois que o acesso a aplicação é liberado você precisa escrever 5 redações que servem como seleção para a terceira etapa, que será a entrevista telefônica com um dos membros fundadores do projeto. Quando você é aprovado em todas as etapas você tem direito a ter três opções de trabalhos que você gostaria de fazer, as minhas três opções foram: 1- Grande empresa Norte Americana de distribuição, 2- Grande agencia de talento Norte Americana, 3- Pequena empresa estrangeria de Distribuição. Depois eles mandam as tuas informações para as empresas que solicitam estagiários e eles selecionam quem eles querem, eu fui selecionada pela maior empresa de Distribuição independente dos Estados Unidos, “Lionsgate”, eu trabalhei com eles por duas semanas, foi uma das melhores experiências que tive na minha vida, nesse tempo eu aprendi muito, e dei muita sorte por ser selecionada por uma empresa tão renomada, mas mais sorte ainda por trabalhar com pessoas tão legais. O nosso turno mandatório era de 5 horas, eu estava em um grupo de 6 estagiários, três deveriam ficar com o turno da manha e três com o turno da tarde. Eu escolhi o turno da manhã, porque eu sabia que era uma ótima oportunidade para causar uma boa impressão nas pessoas que trabalhavam no meu escritório, eu era a primeira a chegar, todo o dia, eu tinha que esperar do lado de fora porque a porta estava ainda trancada. E por eu estar lá no turno da manha eu sabia da agenda da parte da tarde e eu podia acessar em que lugar eles precisariam de mais ajuda, e eu acabava ficando, e porque eu não me importava de trabalhar (os outros estagiários queriam aproveitar o festival) eu ficava ate mais tarde para ajudar a minha chefe no que ela precisava, por causa disso, ela sempre me colocava nas atividades mais importantes e onde eu aprenderia mais, eu participei de varias reuniões para vendas de projetos (eu não posso discutir nomes dos filmes que eles estavam vendendo e buscando investidores porque eu assinei um contrato), mas eu participei de uma cobertura de marketing de um grande filme que eles vão lançar ano que vem, onde casa país que comprou o direito de distribuição do filme estava discutindo como eles iriam fazer a propaganda do filme em seu respectivo lugar, respeitando diferenças culturais e escolhendo celebridades para endossar e aumentar as vendas, foi incrível, aprendi horrores. Um diretor muito famoso de Hollywood, foi contratado pela Lionsgate para dirigir a mais nova franquia da empresa (Lionsgate Produziu “Jogos Vorazes”) e eu tive a oportunidade de participar (observar) de varias reuniões com esse diretor e um dos Cochairman da Lionsgate e possíveis investidores, o projeto só poderia começar o desenvolvimento se eles achassem um investidor disposto a investir $ 120 milhões de dólares, e eles acharam. Durante esses festivais de cinema, um dos objetivos das empresas de distribuição é vender o direito de distribuir os seus projetos em outros países para outras empresas. A Lionsgate alugou um cinema próximo de onde o escritório deles estava e por dia eles passaram 6 filmes diferentes nesse teatro, com acesso exclusivo para duas pessoas de cada empresa interessada em comprar o direito de distribuir o filme. Um dos meus trabalhos era fazer o check in dessas pessoas e acomodá-las no teatro, assistir o filme com elas e depois conversar com a maior quantia de compradores possível para ver a opinião deles sobre o filme e ver se o conteúdo que eles viram funcionaria no país deles, e se não funcionaria, porque? Isso ajuda a Liosngate criar a publicidade para as vendas e também, se o filme ainda não estivesse pronto mudar a edição para acomodar a cultura de países mais conservadores, como alguns do Oriente Médio e da Ásia. Com essa tarefa, eu tive a oportunidade de ver diversos filmes que ainda não estão nos cinemas. Eu tive a oportunidade de trabalhar no evento que eles tiveram para celebrar a aposentadoria de um dos seus CoChairman, eu fui a única estagiaria do meu escritório a ser convidada, depois que eu ajudei com o Check In dos convidados, minha chefe me convidou para participar da festa, onde eu acabei conhecendo muitas pessoas importantes do meio. Através da Lionsgate eu consegui ingressos para a Premier de Han Solo: uma História Star Wars e Fahrenheit 451, com direito a passar pelo tapete vermelho e sentar duas fileiras à frente de Michael B. Jordan e Sofia Boutella.

 

AU – Você vem para o Brasil visitar a família neste ano?

Morgana: Meus pais vieram duas vezes me visitar desde que vim para cá. E eu estou indo para o Brasil pela primeira vez no fim do ano, para passar o Natal com a minha família e levar o Dylan conhecer de onde eu vim.

 

AU - Quais são os seus projetos pessoais e profissionais?

Morgana: Quero focar no meu Projeto Final, que serei a diretora, que vai ser executado na segunda semana de novembro. Continuar trabalhando com o projeto do meu instrutor, Kevin O’Neill, que além de eu ter desenvolvido o Portfolio de apresentação para possíveis investidores eu também vou ajuda-lo como Coordenadora de Produção. Além, desses dois roteiros em processo, estou desenvolvendo outra história para um curta-metragem que busco filmar em janeiro em parceria com a minha faculdade. Pretendo fazer um mestrado ou uma especialização em negócios focado em entretenimento. 

 

AU - Pretende ficar morando aí ou em outro país?

Morgana: Minha intenção é ficar aqui, minha faculdade oferece a oportunidade de um ano de visto de trabalho depois que eu me formar. Esse visto de trabalho vai ajudar no processo de entrada na indústria. Pretendo usar as conexões que fiz quando estive em Cannes e outros contatos que tive a oportunidade de criar durante o tempo que estive aqui. O objetivo é achar uma empresa que patrocinaria meu visto de trabalho após o término desse um ano, o que é bem difícil, empresas tendem a não fazer isso para iniciantes, porque custa caro e às vezes o processo é bem demorado.

 

 AU - Algo que gostaria de acrescentar?

Morgana: Algo legal mencionar que minha faculdade é completamente voltada para o mundo do entretenimento, tem vários cursos na área. Filme, tem alguns tipo diferente de Business (entretenimento, Inovação e Empreendedorismo, Marketing de Internet e Música), vários tipos de Marketing (animação gráfica, design gráfico, design de media, Arte Digital, voltado para criação de jogos (design de jogos, desenvolvimento, arte), tem para Roteiro (desenvolvimento de história, escrita), Mídia e Comunicação, Relações Públicas, Jornalismo na Nova Média, Produção de Áudio (Música, Produção de Shows), outros programas são tão diferentes e criativos que vai ficar difícil traduzir, envolvem tecnologia, criação de software, desenvolvimento da nuvem, Web Design.

Para quem quiser saber mais deixo o site da universidade, tem muitas fotos do lugar, é incrível – https://www.fullsail.edu.

 

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