Uma força feminina nas estradas
Atrás do volante da sua carreta rosa, Marileia Aparecida dos Santos inspira outras mulheres a não desistirem dos seus sonhos
O universo das estradas, por muito tempo dominado por homens, vem se transformando. Cada vez mais, mulheres estão assumindo o volante de caminhões, carretas e outros veículos de transporte, desafiando estereótipos e mostrando que a força, a determinação e a habilidade não têm gênero, provando que os limites, muitas vezes, são apenas aqueles que nós mesmos criamos.
As mulheres trilharam um caminho histórico de luta para conquistar seus espaços e hoje, com orgulho, poder dizer que “o lugar de uma mulher é onde ela quiser”, inclusive na boleia. É uma profissão que exige constante aprendizado e adaptação, mas para quem sempre teve o sonho de ser motorista, os desafios tornam-se o “combustível da vida”.
E quem retrata bem essa realidade é a palmitinhense, que reside em Vista Alegre, Marileia Aparecida dos Santos, de 47 anos. Ela hoje dirige uma carreta rosa, por todo o Brasil, e por onde passa não só chama a atenção pela sua atuação, força e coragem, mas inspira muitas outras mulheres a lutarem pelos seus sonhos. Inclusive, enquanto conversava com a equipe do jornal O Alto Uruguai, estava com a carreta carregada de farelo, e iria descarregar em Passo Fundo.
Um novo rumo
Com as mudanças acontecendo, Marileia, que era responsável pela limpeza de ônibus, nem imagina que seu sonho iria se realizar. Com a faculdade em História na URI/FW concluída, a idealização dos seus objetivos cada vez mais estavam presentes, ela sabia o que queria desde muito jovem, nunca desistiu, e aí ela passou a ser a Marileia motorista, fazendo história e contando a sua própria história.
Por três anos, Marileia dirigiu Van e ônibus, até que veio a pandemia e sua vida novamente teve um novo rumo. “Meu marido, o José Roberto Bueno, vem de uma família de motoristas, ele é, o pai dele era, os tios são, mas eu não tinha ninguém na minha família, só o sonho, e nunca desisti. Então, a partir daí, nas minhas horas de folga, nas minhas férias, eu viajava com ele, que passou a me ensinar, me dar umas dicas. E foi aí que eu vi a minha chance de realizar meu sonho. Ele disse que se eu quisesse mesmo ser motorista, eu tinha que fazer a minha carteira. Não foi fácil, mas eu consegui. Depois surgiu uma vaga na empresa do ônibus que eu havia trabalhado quando eu era nova, que foi o meu chefe que me incentivou a aprender a dirigir. Eu tinha aquele medo, aquele receio de que não ia conseguir trabalhar direto com uma carreta, porque a gente já vem com uma ideia formada de algo negativo. Mas eu fui trabalhar, primeiro na Van e o ônibus, pois eu ficaria mais perto de casa, com viagens mais curtas, porque eu sabia que a vida na estrada não era fácil para as mulheres”, conta.
Mas Marileia precisou novamente se adaptar. “Fui desligada do meu emprego, aí falei com o meu esposo, que estava puxando safra na Bahia. Em conversa, resolvemos que eu deveria ir ao encontro dele, e de lá ele foi me ensinando, me incentivando, me dava a carreta dele para eu ir pegando mais confiança. Ele foi um grande incentivador e me ajudou a hoje estar onde estou”, destaca.
Após isso, Marileia foi contratada por uma empresa de transporte, da qual hoje já são quase quatro anos no comando de uma carreta. “Seu Thiago Raffaelli, meu chefe hoje, a gente conversou naquela vez e eu disse que eu tinha muito medo. Que eu não sabia se eu estava preparada, porque eu tinha viajado junto com o meu marido, nunca sozinha. Mas ele também me incentivou, tive ajuda dos colegas. Na minha primeira viagem, quando cheguei ao destino, eu chorei muito, porque eu havia superado os meus próprios limites”, relembra.
Quebrando paradigmas
A presença de Marileia nas estradas desafia os estereótipos de gênero e demonstra que as mulheres são capazes de desempenhar qualquer função. Sua habilidade em manobrar um veículo de grande porte, sua atenção aos detalhes e sua capacidade de lidar com situações adversas são qualidades que a tornam uma profissional exemplar e inspiração para outras mulheres que desejam seguir na profissão.
– É uma profissão que exige de você. São dias longe de casa, da família, de ter que abrir mão de muitas coisas. Minha filha Carlise, hoje com 30 anos, vive em Estrela, então também para ver ela às vezes fica mais difícil. Mas apesar de todos os contratempos, sou realizada nesta profissão que escolhi. E digo para que todas lutem pelos seus sonhos. Não há melhor momento do que o agora para dar um passo adiante, fazer as coisas que você sempre quis, mas nunca teve tempo ou coragem. Cada momento é único, devemos aproveitar – finaliza.


Fonte: Jornal O Alto Uruguai