Edição Digital Segunda, 20/07/2026 Ler agora
4312 - Segunda
Cultura Pop

Gibiteca Pública de Alpestre conquista indicação inédita ao Troféu Angelo Agostini

Organizadores mobilizam voto popular para iniciativa que traz reconhecimento nacional ao Norte Gaúcho; votação encerra na segunda-feira, 25

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

As votações da premiação mais tradicional de quadrinhos brasileiros, o 42º Troféu Angelo Agostini, encerram na próxima segunda-feira, 25. Entre os finalistas da edição de 2026 está a Gibiteca Pública de Alpestre. O espaço é indicado na categoria Troféu Especial Jayme Cortez, voltada a iniciativas de incentivo e difusão das histórias em quadrinhos no país.

Dados do Portal Literatura RS mostram que a produção gaúcha se destacou na premiação deste ano, com representantes em 12 das 14 categorias do troféu. A indicação de Alpestre coloca em evidência o trabalho desenvolvido no Centro de Cultura da cidade no interior do Norte Gaúcho, onde um acervo com cerca de 3 mil exemplares é utilizado para aproximar crianças, jovens e adultos do universo da “nona arte”. 

A votação popular segue aberta até a próxima segunda-feira, 25, de forma online, por meio do formulário oficial da organização. Os resultados serão divulgados no dia 29 deste mês. A cerimônia de premiação acontece no dia 28 de junho, na Casa da Cultura do Butantã, em São Paulo.

De um estande de feira ao reconhecimento nacional

A proposta da Gibiteca nasceu em 2023, durante a Feira do Conhecimento de Alpestre, a partir de uma conversa entre o quadrinista Marcel Ibaldo e o presidente da Associação Amigos das Histórias em Quadrinhos (AHQ), Edson Vargas de Mello. Marcel conta que a discussão aconteceu diante do estande da associação e idealizar o espaço os empolgou instantaneamente. 

Ainda no evento, a dupla apresentou o projeto ao então prefeito, Sr. Valdir Zasso. A proposta recebeu apoio imediato do município. Marcel e Edson levaram o plano aos outros membros da associação e, em conjunto com Marcelli Ibaldo, filha de Marcel, a ideia da Gibiteca Municipal de Alpestre começou a tomar forma. 

A construção foi coletiva. Uma mobilização nacional ajudou a divulgar a iniciativa e encontrar doadores. Entre os apoiadores estão pessoas da comunidade alpestrense, colecionadores, editoras e instituições como a Gibiteca de Curitiba e a Associação de Quadrinistas do Rio Grande do Sul (Aquarios), que contribuíram para a formação do acervo. 

A Secretaria Municipal de Educação e Cultura cedeu o espaço, junto ao Centro de Cultura, além de estagiário para o atendimento ao público. Em 19 de dezembro de 2024, o espaço foi inaugurado. No primeiro mês, a gibiteca recebeu cerca de 200 visitas. Depois de pouco mais de um ano, o espaço ganha destaque nacional. 

Inauguração da o espaço. Foto: Rádio Ponto Norte/ AHQ/ Divulgação.

A indicação da Gibiteca Pública de Alpestre ao 42º Troféu Angelo Agostini foi recebida com surpresa e, para Marcel, reflete o resultado de um trabalho contínuo de renovação do acervo, diálogo com o público e ampliação das atividades desenvolvidas junto à comunidade.

“Temos buscado que a gibiteca se mostre uma força dinâmica sempre presente de maneira positiva, seja na comunidade local e regional, mas também enquanto parte desse cenário cultural nacional” enfatiza.

Marcel enfatiza que a publicação frequente de novas obras, a participação em eventos culturais no município e em outras regiões do país, além da construção de uma rede de contatos dentro e fora do Rio Grande do Sul, foram fatores fundamentais para ampliar a visibilidade da ação. 

A premiação recoloca a gibiteca no centro de uma mobilização que evidencia como o projeto, surgido no interior do Norte Gaúcho, impacta na percepção das HQs como uma ferramenta de acesso à cultura, educação e convivência entre diferentes gerações. 

Pai e filha unidos pelos quadrinhos 

Marcel ouviu falar dos quadrinhos através de seu pai, quando ainda morava em Quaraí, na fronteira com o Uruguai. Quando teve contato com as primeiras edições, soube que queria fazer o mesmo. Morando em Santa Maria, conheceu a cena local e publicou os primeiros trabalhos em revistas profissionais, participou das primeiras exposições e publicou em jornais da cidade. 

Em Alpestre, o quadrinista recebeu o Troféu HQMIX (conhecido como o Oscar dos Quadrinhos), além de dois prêmios no concurso Silent Manga Audition no Japão. Ibaldo também iniciou a publicação da Tê Rex com a arte de sua filha, Marcelli.

Tê Rex, Marcelli e Marcel. Foto: Rádio Ponto Norte/ AHQ/ Divulgação.

Marcelli tinha sete anos quando começou a publicar HQs com seu pai.

“Ela já demonstrava curiosidade referente a quadrinhos desde que morávamos em Santa Maria e ela via meus amigos quadrinistas indo trabalhar lá em casa. Então pareceu natural iniciar um projeto com ela”, afirma Marcel, apesar de não ter imaginado que o publicaria um dia. 

Hoje, já são sete edições da Tê Rex, além do reconhecimento em importantes premiações de quadrinhos do país. Marcelli atua profissionalmente na área e a personagem ganhou o título de madrinha da Gibiteca de Alpestre.

Quando as HQs aproximam novos leitores e artistas

Marcelli realiza oficinas de histórias em quadrinhos na gibiteca. Foto: Arquivo Pessoal.

Os quadrinhos foram a porta de entrada de Marcelli para a leitura e entretenimento, estudo e profissão. Hoje, essa experiência também é compartilhada nas oficinas realizadas por ela na Gibiteca Pública de Alpestre.

Marcel destaca que, por parte da AHQ, “sempre houve o questionamento sobre a forma de tornar o hábito da leitura algo cada vez mais familiar à comunidade local e da região. A linguagem das histórias em quadrinhos se mostrou a mais acessível para esse objetivo e buscávamos formas de expandir isso”. 

A experiência dos visitantes corrobora o pensamento do idealizador.

“Acho muito importante haver um espaço público que nem a Gibiteca, aqui tem muito material que instiga a leitura, desde clássicos até material mais recente, com um foco bem cultural”, conta a frequentadora Gabrielly Umpierre Barros, 18 anos. 

A indicação traz muito orgulho à cidade. A secretária municipal de Educação e Cultura, Cindiamar Meotti, ressalta que a pasta incentiva professores a levarem alunos para visitas durante o horário escolar, além de estimular a participação no contraturno. Conforme a gestora, o reconhecimento nacional incentiva e fortalece os projetos de leitura e cultura desenvolvidos no município. Cindiamar também conta que a secretaria busca novas formas de apoio à iniciativa.

Aluno lê durante contraturno escolar. Foto: Camila Oliveira.

A Gibiteca amplia o acesso aos quadrinhos e cria oportunidades para que crianças, jovens e adultos tenham contato com a leitura, a criatividade e diferentes formas de expressão cultural.

“É muito importante todo incentivo à cultura, principalmente em uma cidade pequena como a nossa, onde muitas pessoas não teriam acesso a esse tipo de material”, aponta a frequentadora Renata Mikolaiczk, 18 anos.

Desmistificando a História em Quadrinho

Parte do trabalho da gibiteca é a quebra da barreira inicial que o universo dos quadrinhos ainda enfrenta. Nada de histórias apenas para o público infantil ou restritas a uma temática específica. O acervo oferece leituras para todos os gostos, abrangendo desde narrativas mais breves, até enredos densos.  

O impacto já é percebido na relação da comunidade com o espaço. Marcel relata que é comum receber pessoas interessadas em conhecer a Gibiteca, buscar horários de visitação ou até retomar o hábito da leitura. Muitos frequentadores já incorporaram o local à rotina cultural do município.

“Eu gosto muito de vir à Gibiteca, encontrar amigos e estar em um espaço que incentiva a leitura e o conhecimento”, fala a jovem de 18 anos, Nina Rosa Fernandes.

Acervo abrange obras diversas. Foto: Camila Oliveira.

A associação também fomenta novas publicações de autores locais e mantém bibliotecas escolares abastecidas com esse material. As oficinas de produção de quadrinhos e o Concurso Municipal de Quadrinhos, promovido pela AHQ, vêm revelando novos talentos. “É mesmo muito legal conhecer tantos alunos com potencial para a arte que vão aprendendo técnicas nas oficinas que realizamos”, descreve Marcel. 

Para os organizadores, os quadrinhos carregam um potencial transformador que vai além do entretenimento. As HQs conseguem dialogar com diferentes contextos, formatos e públicos, transitando entre o digital e o impresso e acompanhando diferentes momentos e transformações da sociedade.

Um espaço de convivência e acesso à cultura

Amigos se encontram na gibiteca. Foto: Camila Oliveira.

Ibaldo relata que participar da criação e da rotina da Gibiteca Pública de Alpestre, ao lado da Associação Amigos das Histórias em Quadrinhos e de Marcelli, trouxe uma nova percepção sobre a presença dos quadrinhos no cotidiano das pessoas. A experiência o ajudou a compreender diferentes formas de aproximar as HQs das conversas, dos interesses e das referências culturais da comunidade, reflete.

Além da proposta educativa, a Gibiteca também se consolida como um espaço de convivência e acesso gratuito à cultura pop no município. Marcel destaca que o local reúne públicos diversos em torno de interesses em comum, criando conexões que vão além das interações digitais, muitas vezes, predominantes.

Frequentadores contam que o espaço possibilita acesso a obras que muitas vezes seriam difíceis de adquirir individualmente. Além disso, oficinas e sessões de RPG ajudam a ampliar a participação do público e fortalecer o vínculo da comunidade com a Gibiteca. 

“Existe uma grande conexão entre quadrinhos e RPG. Várias obras de RPG foram inspiradas em obras literárias muito famosas, e por isso existe uma conexão muito forte entre esses dois mundos. O RPG na Gibiteca está relacionado à parte criativa, instigando a buscar soluções narrativas para as histórias”, explica Gabrielly. Jardel José Outeiro da Silva, 28 anos, complementa: “ é como se todos aqueles mundos que você imaginou na leitura se tornassem reais e você fosse o personagem principal deles.”

Marcel afirma ainda que o número de visitantes assíduos cresce constantemente, reunindo público de Alpestre e de outras cidades. Pessoas de outros lugares também entram em contato para elogiar a iniciativa e buscar orientações sobre como criar gibitecas em seus próprios municípios. Segundo ele, muitos visitantes encontram no espaço um ponto de identificação e compartilhamento de interesses, o que torna a gibiteca parte cada vez mais importante da rotina cultural local e regional.

Fonte: Jornal O Alto Uruguai