Do esgoto à vida: o Rio de Janeiro que antecipa o futuro do saneamento no RS
Em viagem técnica promovida pela Aegea/Corsan, O Alto Uruguai acompanhou os resultados de investimentos em água e esgoto que começam a transformar comunidades, praias, lagoas e a relação da população com a cidade
Resumo
- Comunidades: melhorias no abastecimento, saneamento e qualidade de vida.
- Tecnologia: monitoramento 24 horas aumenta a eficiência da operação.
- Meio ambiente: recuperação de lagoas, praias e espaços urbanos.
- Rio Grande do Sul: experiência carioca sinaliza benefícios dos investimentos previstos no Estado.
Entre tubulações instaladas em vielas de comunidades, sistemas monitorados em tempo real e águas que voltaram a receber banhistas e animais, o Rio de Janeiro apresenta hoje exemplos concretos de como o saneamento pode modificar uma cidade. Foi para conhecer de perto essa transformação que representantes de veículos de comunicação do interior do Rio Grande do Sul participaram de uma viagem técnica organizada pela Aegea/Corsan à operação da Águas do Rio, empresa do Grupo Aegea responsável pelos serviços de água e esgoto em parte da capital e em municípios fluminenses. O jornal O Alto Uruguai foi representado pela diretora Patricia Cerutti, que acompanhou dois dias de visitas técnicas, conversas com especialistas, lideranças comunitárias, moradores e executivos da companhia. Mais do que números e projetos, a agenda colocou lado a lado duas realidades: aquilo que já começa a ser percebido no Rio de Janeiro e o caminho que o Rio Grande do Sul terá de percorrer para avançar na universalização do saneamento.
A primeira atividade, na manhã de quinta-feira, foi com a equipe do programa Vem Comigo, iniciativa que aproxima a concessionária das comunidades e ajuda a identificar situações como falta de água, vazamentos, ligações irregulares e ausência de redes adequadas. A experiência ganhou ainda mais significado na sequência, com a visita ao Complexo da Mangueira. Em dois pontos da comunidade, a comitiva pôde observar realidades completamente distintas. De um lado, áreas onde a infraestrutura já foi implantada, com abastecimento regular de água e avanço do saneamento; de outro, locais onde as obras ainda estão em execução e sobrevivem instalações precárias, ligações improvisadas, baixa pressão e descarte inadequado de esgoto. A líder comunitária Angele Miranda, presidente da associação de moradores, relatou mudanças percebidas por famílias que durante décadas conviveram com serviços básicos deficitários. Além dos reflexos sobre saúde e dignidade, a regularização do fornecimento trouxe um efeito pouco evidente para quem observa o saneamento apenas pela ótica das obras: para milhares de moradores de comunidades, a própria conta social de água passou a servir como comprovação formal de residência.
A segunda visita levou os jornalistas à sede da Águas do Rio e ao Centro de Operações Integradas, onde o grupo também foi recebido pela direção institucional da empresa. É nesse ambiente que tecnologia, dados e equipes especializadas se encontram para acompanhar 24 horas por dia a operação. Mais de 400 profissionais atuam na estrutura, monitorando desde a captação até a distribuição da água. Sensores instalados na rede permitem detectar eletronicamente alterações de pressão, vazamentos e rompimentos de tubulações, acionando equipes de campo. O modelo também aposta na proximidade com os territórios: conforme apresentado durante a visita, cerca de 4 mil colaboradores são moradores de comunidades e mais de 1,2 mil lideranças comunitárias estão mapeadas como interlocutoras. A integração ajuda a chegar a locais onde a geografia urbana e as características das comunidades tornam a operação muito mais complexa.
A terceira parada evidenciou talvez um dos resultados mais simbólicos dessa transformação: a Lagoa Rodrigo de Freitas. Durante anos, um dos cartões-postais mais conhecidos do país conviveu com episódios de mau cheiro, poluição e mortandade de peixes. Com intervenções no sistema de esgotamento e ações ambientais, o cenário mudou. O trabalho acompanhado pelo ambientalista Mário Moscatelli demonstra também a velocidade com que a natureza pode reagir quando a carga de poluição é reduzida: fauna e flora recuperaram espaço e peixes e aves voltaram a dividir a paisagem com crianças, esportistas, praticantes de canoagem e stand up paddle. A experiência reforça uma dimensão muitas vezes esquecida quando se fala em saneamento: o investimento feito debaixo da terra pode produzir resultados visíveis na superfície, recuperando espaços públicos, ecossistemas e a própria relação das pessoas com a cidade.
Na manhã de sexta-feira,14, a quarta etapa da agenda começou na Marina da Glória e avançou para uma leitura prática dos efeitos do saneamento sobre a Baía de Guanabara e as praias de Flamengo e Botafogo. Um dos pontos observados foi a região da foz do Rio Carioca, curso d'água que atravessa parte da cidade de forma canalizada e subterrânea e que, durante décadas, carregou esgoto em direção à Baía de Guanabara. Intervenções para impedir que esse material chegue ao mar contribuíram para uma mudança que pode ser percebida sem equipamentos ou planilhas: áreas que por anos conviveram com restrições voltaram a registrar condições de balneabilidade e presença de banhistas. O resultado também desencadeia efeitos econômicos. Quando uma praia volta a ser ocupada, movimenta comércio e serviços, recupera espaços antes degradados e tende a contribuir para a valorização do entorno.
A dimensão dessas mudanças está diretamente relacionada à escala dos investimentos. Desde que assumiu a operação, em 2021, a Águas do Rio informa ter investido mais de R$ 6 bilhões em infraestrutura e melhorias. A empresa atende áreas das zonas Sul, Centro e Norte da capital e outros 18 municípios fluminenses, incluindo cidades populosas da Região Metropolitana e da Baixada Fluminense. O desafio é particularmente complexo porque cerca de 22% dos moradores da capital vivem em favelas, onde décadas de ocupação sem infraestrutura adequada deixaram como herança redes insuficientes ou inexistentes. É nesse contexto que saneamento deixa de significar apenas quilômetros de tubulação: envolve saúde pública, meio ambiente, inclusão social, desenvolvimento econômico e recuperação urbana.
Transtornos temporários, para benefícios permanentes!
A experiência carioca ganha relevância para os gaúchos porque o mesmo Grupo Aegea assumiu o controle da Corsan em julho de 2023. O Rio Grande do Sul parte de uma cobertura de esgotamento ainda baixa e terá de acelerar investimentos para atender às metas do Marco Legal do Saneamento, que estabelece como objetivo, até 2033, atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto. Quando a Aegea assumiu a Corsan, a cobertura de esgoto estava em torno de 19% e, conforme números apresentados pela companhia, já se aproxima dos 30%. Entre as soluções previstas para acelerar esse avanço estão estações modulares de tratamento, cuja implantação pode ocorrer em cerca de quatro meses, além de grandes projetos em municípios da Bacia do Guaíba e no Litoral Norte. O desafio brasileiro permanece expressivo: pouco mais da metade da população conta com coleta de esgoto, cenário que exige uma expansão em ritmo muito superior ao observado historicamente.
Para Patricia Cerutti, observar os resultados no Rio de Janeiro permitiu transformar projeções e cronogramas em uma referência concreta do que poderá ocorrer no território gaúcho. “Não apenas conhecemos a estrutura da empresa, o nível técnico e de inovação que estão implementando em todos os processos, mas principalmente, ver na prática o resultado já palpável, com relatos de especialistas na área ambiental, mas também da população, que reconhece a evolução enorme que a cidade já vive em função do tratamento de esgoto. Observar in loco duas realidades distintas, é ter uma ideia na prática da evolução que teremos aqui no Rio Grande do Sul assim que as primeiras etapas das obras em andamento estiverem avançado. Não tenho dúvidas que os ganhos serão enormes e o saneamento deixará de ser uma meta e se tornará uma realidade, que trará mais qualidade de vida para as nossas cidades. Cito ainda uma frase que representa muito este processo: transtornos temporários, para benefícios permanentes!”, destaca a diretora de O Alto Uruguai.
O contraste encontrado na Mangueira talvez seja a síntese mais clara de toda a viagem. De um lado da comunidade, redes improvisadas e um sistema ainda inadequado mostram as consequências de décadas sem infraestrutura. Pouco adiante, onde as intervenções avançaram, água regularizada e saneamento começam a alterar a rotina dos moradores. O mesmo contraste aparece em escala ambiental entre uma praia que recebe esgoto e outra que volta a receber banhistas; entre uma lagoa marcada pela mortandade de peixes e um ambiente onde a fauna retorna. Saneamento é uma obra que, em grande parte, desaparece depois de pronta: tubulações ficam enterradas e estações passam despercebidas pela maioria das pessoas. Seus efeitos, porém, reaparecem na saúde, na valorização urbana, no turismo, na economia, na preservação dos rios e, principalmente, na qualidade de vida.
Para o Rio Grande do Sul, a experiência fluminense não elimina as particularidades locais nem reduz o tamanho do desafio. Ao contrário: evidencia a necessidade de acompanhar investimentos, prazos, qualidade dos serviços e o cumprimento das metas assumidas pela concessionária. Mas também demonstra o que pode existir do outro lado das valas abertas, das ruas temporariamente interrompidas e dos grandes canteiros de obras que começam a fazer parte da paisagem das cidades gaúchas. O Rio de Janeiro visitado pela comitiva mostra que, quando o esgoto deixa de chegar aos rios, lagoas e praias, a resposta não aparece apenas nos indicadores técnicos. A água responde, a natureza responde e, sobretudo, a cidade responde. É neste ponto que a expressão ouvida durante a viagem ganha sentido: os transtornos são temporários; os benefícios podem ser permanentes.
A viagem técnica contou com a participação dos veículos gaúchos O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen, A Hora, de Lajeado, Jornal Bom Dia, de Erechim, A Gazeta, de Santa Cruz do Sul, Diário da Manhã, de Santa Maria, Jornal Do Povo, de Cachoeira do Sul e a Folha do Mate, de Venâncio Aires. O grupo foi acompanhado pela Diretora de Comunicação da Corsan Gabriela Gabriela Mendonça e pelo Diretor de Relações Institucionais da Corsan Cesar Faccioli.
Fonte: Jornal O Alto Uruguai