Casos de HIV crescem 185% em dez anos na região atendida pelo SAE/CRAIP
Serviço especializado acompanha mais de 450 pessoas e reforça a importância da testagem precoce, do combate ao preconceito e da ampliação das ações de prevenção
O número de pessoas diagnosticadas com HIV/Aids na área de abrangência do Serviço de Assistência Especializada (SAE/CRAIP) de Frederico Westphalen apresentou crescimento expressivo na última década. Dados dos sistemas oficiais de informação mostram que os casos vinculados ao serviço passaram de 142 em 2015 para 405 em 2025, um aumento de aproximadamente 185%.
Atualmente, mais de 450 pessoas vivendo com HIV/Aids estão vinculadas ao serviço, sendo que mais de 365 utilizam terapia antirretroviral. O SAE/CRAIP atende os 26 municípios da 2ª Coordenadoria Regional de Saúde (2ª CRS), abrangendo uma população de 194.752 habitantes, conforme o Censo 2022 do IBGE.
A enfermeira Julia de Moura Quintana explica que os números refletem apenas os casos diagnosticados e acompanhados pelos sistemas oficiais.
“É importante salientar que existe um círculo de transmissão. Para cada pessoa contaminada podem existir outras que ainda não foram diagnosticadas”, afirma.
Perfil dos pacientes acompanha tendência nacional
Embora haja limitações no preenchimento de algumas notificações, principalmente em relação à escolaridade e raça/cor, os dados regionais apontam predominância de homens entre os casos registrados. “A faixa etária predominante é de 40 a 59 anos. Também observamos maior frequência entre pessoas com baixa escolaridade e a raça/cor majoritária é branca, o que acompanha as características demográficas da nossa região”, explica Julia.
Os municípios com maior número absoluto de casos são Frederico Westphalen, Três Passos, Seberi e Planalto, localidades que também concentram as maiores populações da região.
Diagnóstico ainda enfrenta barreiras
Apesar da disponibilidade gratuita de testes rápidos, a procura ainda é considerada insuficiente. Em média, menos de 6% da população regional realizou testagem no último ano.
Segundo Julia, o preconceito e o receio da exposição continuam sendo obstáculos importantes.
“Precisamos ampliar o acesso às testagens rápidas e aos autotestes. Muitas pessoas ainda têm preocupação com o sigilo e isso acaba impedindo que procurem os serviços de saúde”, alerta.
A enfermeira relata que alguns pacientes preferem buscar atendimento em municípios diferentes daquele onde residem justamente para preservar a privacidade. “Muita gente ainda nem sabe que existe o autoteste. Quanto mais pessoas ajudarem a divulgar essas informações, melhor”, destaca Julia.
Para conscientização e incentivo à prevenção, o SAE/CRAIP desenvolve ações em parceria com as equipes da atenção básica, empresas e instituições durante campanhas como Dezembro Vermelho, Julho Amarelo, Outubro Rosa e Novembro Azul. Recentemente, mais de 100 autotestes foram distribuídos em uma ação realizada em Frederico Westphalen.
Atendimento envolve equipe multiprofissional
Os pacientes que recebem diagnóstico positivo são acolhidos por uma equipe formada por enfermeira, técnica de enfermagem, médica, farmacêutica e psicóloga. Os exames iniciais podem ser realizados no município de origem, antes do encaminhamento ao SAE/CRAIP. Quando o diagnóstico ocorre no próprio serviço, todo o processo é conduzido pela equipe especializada. – O paciente passa pela técnica de enfermagem, pela enfermagem, pela psicóloga e pela consulta médica. Sai daqui com todas as orientações necessárias e com o encaminhamento para continuidade do tratamento e acompanhamento – detalha Júlia. O monitoramento ocorre por meio de consultas periódicas, exames laboratoriais, contato direto com os municípios e busca ativa quando há indícios de abandono do tratamento.
Tratamento mudou a realidade dos pacientes
Se no início da epidemia de HIV/Aids os tratamentos exigiam grande quantidade de medicamentos e causavam efeitos colaterais importantes, hoje a realidade é diferente. A farmacêutica Cláudia Bassanello destaca que os avanços terapêuticos transformaram a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV. “Antigamente se falava em coquetel. Eram muitos comprimidos por dia. Hoje, o tratamento inicial geralmente envolve dois comprimidos tomados uma única vez ao dia, com poucos efeitos colaterais e muito mais facilidade de adesão”, informa.
Segundo ela, os medicamentos são fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e não há registro de falta na rede pública.
“Os medicamentos são financiados pela União. O Ministério da Saúde compra, repassa aos estados e os estados distribuem aos municípios responsáveis pela dispensação. Já faz bastante tempo que não enfrentamos falta desses medicamentos”, garante Claudia.
Já a evolução do tratamento ao longo dos anos permite que pessoas diagnosticadas precocemente tenham expectativa de vida semelhante à da população em geral.
“Se a pessoa seguir corretamente o tratamento, a expectativa de vida é praticamente igual à de quem não tem HIV”, reforça Julia.
Diagnóstico precoce faz a diferença
Um dos principais desafios identificados pela equipe é o diagnóstico tardio. Muitos pacientes ainda descobrem a infecção apenas quando apresentam sintomas decorrentes da queda da imunidade.
“Temos recebido vários diagnósticos tardios. Às vezes, o paciente passou por diversas consultas e internações antes de alguém solicitar um teste de HIV”, relata a enfermeira.
Entre os sintomas que podem surgir em fases mais avançadas estão perda de peso, diarreia persistente, aumento dos gânglios linfáticos, infecções de repetição e doenças oportunistas, especialmente, a tuberculose. A profissional ressalta que o HIV pode permanecer por anos sem provocar manifestações importantes, o que reforça a necessidade da testagem periódica.
“Precisamos aumentar o acesso da população às testagens e trabalhar para reduzir o tabu que ainda existe em relação ao exame”, adverte.
Indetectável significa intransmissível
Entre os resultados mais importantes alcançados pelo tratamento está a supressão viral. Quando a carga viral se torna indetectável, o vírus deixa de ser transmitido por via sexual. “O indetectável é igual ao intransmissível. Quando o paciente mantém a carga viral indetectável, ele não transmite o HIV nas relações sexuais”, explica Júlia.
Outro resultado importante é a eliminação da transmissão vertical, que ocorre da mãe para o bebê durante a gestação, parto ou amamentação.
“Nossos municípios já não registram transmissão vertical há muitos anos. Hoje, mesmo quando o diagnóstico ocorre próximo ao parto, existem protocolos que praticamente eliminam o risco de transmissão para a criança”, comenta Julia.
A realidade regional segue o panorama nacional. Em dezembro de 2025, o Brasil foi certificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por eliminar a transmissão vertical do HIV. O país tornou-se o maior e mais populoso do mundo a atingir esse marco, garantindo que o vírus não seja transmitido durante a gestação, parto ou amamentação.
Prevenção vai além do preservativo
Além dos testes rápidos e do uso de preservativos, o SUS oferece outras estratégias de prevenção. Uma delas é a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), indicada para situações de risco e que deve ser iniciada em até 72 horas após a exposição ao vírus.
Outra é a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), destinada a pessoas que desejam reduzir o risco de infecção pelo HIV antes de eventuais exposições.
“A prevenção é combinada. Não existe apenas uma forma de prevenção. Temos preservativos, vacinas, testagem, PEP e PrEP. Quanto mais estratégias a pessoa utilizar, maior será sua proteção”, comenta Julia.
Serviço também atende outras condições
Além do acompanhamento de pessoas vivendo com HIV, o SAE/CRAIP atua no atendimento de pacientes com hepatites virais, sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis. O serviço acompanha gestantes vivendo com HIV, crianças expostas ao vírus durante a gestação e usuários de PrEP e PEP, além de promover atividades de educação em saúde e capacitação de profissionais dos 26 municípios da região.
A equipe atual é formada pela enfermeira Julia de Moura Quintana, pela farmacêutica Cláudia Bassanello, pela técnica de enfermagem Solange Piovesan, pela médica Vanessa Binotto e pela psicóloga Izabel de Fátima Caeran. Há cerca de três meses, o serviço funciona em novo endereço, na Rua José Cañellas, 450, em frente à Digiconta, em Frederico Westphalen.
Fonte: Jornal o Alto Uruguai