Antônio João Manfio
Antônio João Manfio

Professor, graduado em Filosofia. Especialização em Pedagogia da Alternância, Diálogo Ecumênico e Inter-religioso, Administração Escolar. Mestre em Planejamento Educacional e doutor em Pedagogia da Alternância.

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Pós-verdade

As redes sociais tornaram-se o fetiche disseminador da pós-verdade

Publicado em: 10/08/2019

Vira e mexe topamos com palavras formadas com o sufixo “pós”. Dentre elas está pós-verdade. As palavras nascem e morrem como tudo na história. Existem línguas faladas e escritas (português), só faladas (dialeto vêneto até pouco tempo), só escritas (esperanto), vivas (inglês, francês, espanhol) e mortas (latim, grego clássico).

O uso ou abandono de palavras segue o fluxo do processo cultural dos povos. A língua é uma ferramenta de comunicação, mas também de exercício de poder. Os portugueses, ao chegar ao Brasil, impuseram sua língua aos povos que dominaram.

A formação de novas palavras revela o aparecimento de fatos e fenômenos novos. O filósofo da ciência, Gaston Bachelard, diz em seu livro “O Novo Espírito Científico”, que novos paradigmas são anunciados através de novos termos. Aprender, no fundo, significa familiarizar-se com a linguagem própria de uma ciência ou ramo do conhecimento. Para isso, é necessário aprender o significado das palavras.

Até agora, a escola usava a palavra verdade para designar a adequação de uma proposição ao objeto a que se refere. Por exemplo, o vigário celebrou missa às 10 horas, é uma verdade se de fato a missa foi celebrada nesta hora, na capela, presentes fiéis que dão testemunho desse fato. Assim, verdade é sempre verdade, não há uma “pré ou pós” verdade. Ou a missa ocorreu ou não.

Seria uma não verdade, se um vigarista, para ludibriar a polícia, dissesse que estava nesta missa (pós-verdade) enquanto estava na rodoviária roubando passageiros (o fato da verdade). Neste caso, ele criou um álibi com o qual busca confundir a investigação, falseando a verdade.

Mas, o termo pós-verdade a que coisa se refere?

Na PUC, foi ali que topei com a palavra “pós-verdade”. Rastreei enciclopédias livres e faço um resumo aproximado de seu significado: “Pós-verdade é o conjunto de circunstâncias em que é atribuída grande importância, sobretudo social, política e jornalística, a notícias falsas ou versões verossímeis dos fatos, com apelo às emoções e às crenças pessoais, em detrimento de fatos ou da verdade objetiva. É o território do vale tudo na guerra comercial, ideológica e política”. Em 2016, o termo “pós-verdade” foi escolhido como a “palavra do ano”, tamanha foi a enxurrada de mentiras ditas com jeito de verdade.

Enquanto na ciência e filosofia, a verdade precisa do arcabouço factual e da lógica para ser aceita, a pós-verdade se impõe pela saturação de factoides, pela profusão de apelos emocionais, pela insistência de que o aparente é algo real. As redes sociais tornaram-se o fetiche disseminador da pós-verdade.

Segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé, os protagonistas da pós-verdade formam uma classe de ressentidos com a mediocridade escolar que buscam dar “visibilidade para invisíveis irrelevantes”.

Estamos frente a um fenômeno de massas em que tudo se embaralha, a verdade como expressão da realidade com a pós-verdade que nasce da confusão e da incapacidade dos sujeitos distinguirem uma coisa de outra.

Jesus alertou seus seguidores que haveria de aparecer uma época em que ocorreria esta barafunda na opinião pública. “Hão de surgir falsos profetas e falsos messias que apresentarão grandes sinais e prodígios, de modo a enganar, se possível, até os eleitos” (Mt 24, 24).

A pós-verdade é o dicionário do homo demens, do sujeito medíocre, do estudante vadio, do pregador prestidigitador, do político canalha, do vendedor mentiroso.

A pós-verdade é mais um dentre os instrumentos de dominação, de submissão das mentes nanicas, de sedução dos consumidores sempre ávidos por novos produtos, por qualquer coisa nova. Com ela, impõe-se o império da confusão. Basta atentar para o cinismo subjacente nas declarações de quem, por dever constitucional, precisa fazer juramentos públicos. Juram falso. Hiperbolizam a mentira. E não se ruborizam ao escamotear a verdade.

Ao saudar alguém, ele já pergunta “qual a novidade?”. A verdade não é nem velha e nem nova, é apenas verdade, sem adjetivação. A pós-verdade é vendida e consumida como produto mágico, a última coisa que surgiu. Entra por um ouvido e sai pelo outro. Entra pelo olho, vai à boca e torna-se excremento em seguida.

 Acautelai-vos contra todos eles, disse-nos Jesus.

 

 

 

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