Antônio João Manfio
Antônio João Manfio

Professor, graduado em Filosofia. Especialização em Pedagogia da Alternância, Diálogo Ecumênico e Inter-religioso, Administração Escolar. Mestre em Planejamento Educacional e doutor em Pedagogia da Alternância.

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Anserritacáxia

Tentei de outras maneiras saber como se chamava a escola e ele se engasgava

Publicado em: 04/05/2019

Que diferença existe entre Eurico de oito anos, o presidente da República, o vice-presidente, o ministro da Justiça, o ministro das Relações Exteriores e o ministro da Educação e um terço dos candidatos a emprego? Resposta: o único que não foi comentado na imprensa foi o Eurico.

Eurico estuda na Escola Municipal Santa Rita de Cássia. No dia 18 de março não foi à escola. Fora avisado que a professora faltaria. Ele acompanhou o vô que trabalha em um lava car. Enquanto o vô lavava meu carro brinquei com ele que se entretinha com um cusquinho. Respondeu sim quando perguntei se estudava, mas se engasgou para dizer o nome da escola. “Anserritacáxia”, dizia. Tentei de outras maneiras saber como se chamava a escola e ele se engasgava. O vô, que ouvia nosso papo, veio socorrê-lo: a escola é Santa Rita de Cássia, disse.

No mesmo dia, a imprensa noticiou que um terço dos candidatos a emprego é refugado em decorrência de erros gramaticais e léxicos, constantes no currículo. Erros de gramática são erros de concordância, regência, gênero. Erros léxicos são palavras mal escritas, dois esses em vez de cedilha, um erre quando deveriam ser dois, acentuação malfeita.

Assim, Eurico pronunciava o nome da escola como soava em seu ouvido. Daqui uns dez anos, provavelmente, será reprovado numa seleção ao emprego, por não entender o mínimo de gramática.

Na semana seguinte, a imprensa veiculou profusão de “anserritacáxia” pronunciados por atores da alta cúpula da governança. Alguns escorregaram na gramática, outros no léxico e outros ainda na história. Por ocasião do genocídio praticado numa escola, o presidente do STF, discursando com pose professoral, disse que a violência não faz parte de nossa cultura. Com este palpite revela pouco conhecimento da história do Brasil. Seis milhões de escravos e cinco milhões de aborígenes foram martirizados. Toda hora agricultores e líderes de pastorais são mortos por pistoleiros. Anualmente, 50 mil morrem no trânsito, em brigas, em assaltos. A história do Brasil foi e é escrita com sangue, diz Caio Prado Jr.

O ministro da Justiça, ao falar a deputados sobre projeto de arrocho legal contra criminosos, ofendeu o dicionário. Querendo dizer “cônjuge” dizia “conge”. O ministro das Relações Exteriores acusava ignorância crassa, ao afirmar que o Nazismo foi doutrina de esquerda. Frente o alvoroço que tamanha estupidez causou na imprensa internacional, o presidente do Brasil, diante do Memorial do Holocausto, em Jerusalém, confirmou a versão de seu ministro dizendo que na sigla “Nazismo” está a palavra “socialismo”, provando que foi movimento de esquerda. Ele acabara de visitar o memorial, dentro do qual deverá ter visto a placa acusando os horrores que aquele movimento de extrema direita causou ao mundo. O vice-presidente quis atalhar a trapalhada, mas beliscou a ciência política ao dizer que todos os “ismos” indicam “totalitarismos”. Segundo sua teoria cristian(ismo) também seria sistema totalitário?

O ministro da Educação nega que tenha havido ditadura no Brasil. Diz que mandará queimar os livros de história que ensinam que houve ditadura militar no Brasil. Os ministros entendem de história geral e do Brasil tanto quanto o papa Urbano VIII entendia de história da ciência. Ele fez do geocentrismo dogma de fé e mandava queimar vivos os que contrariavam sua falsa crença. Há milhões de testemunhos idôneos que confirmam o caráter de extrema direita do Nazismo e da ditadura.

É compreensível menino da periferia não saber pronunciar o nome da escola. Uma vergonha nacional, o presidente e auxiliares do alto escalão tropeçarem na gramática, dicionário e em manuais de história. Por falta de leitura ou por estupidez ideológica.

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