Lana Campanella
Lana Campanella

Professora universitária.

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Sociedade doente

Onde está o livre arbítrio?

Publicado em: 20/04/2019

Defender e apoiar causas, acabam por revelar ao grande público o entendimento que temos a respeito de pautas como política, religião, futebol, gênero, economia e outros tantos assuntos. A polêmica e a falta de consenso são comuns – uma vez que a liberdade de expressão instiga ao debate – o que é salutar desde que não se transforme em um palco de hostilidades, pois o fato de discordar não nos faz inimigos de quem pensa contrário a nós. O problema é o proselitismo, ou seja, a insistência em “doutrinar” alguém com os nossos preceitos, como se fôssemos senhores absolutos da verdade. Quem pratica o proselitismo namora com o fanatismo no empenho em tentar converter um maior número de pessoas a favor de sua causa, usando artimanhas de persuasão por vezes agressivas, a fim de conseguir seu contento. Le Bon identificou, ainda no século XIX, esse tipo de comportamento doentio de grupos se reunirem e comungarem de forma irracional suas causas ao afirmar que “nas grandes multidões, acumula-se a estupidez, em vez da inteligência. Na mentalidade coletiva, as aptidões intelectuais dos indivíduos e, consequentemente, suas personalidades se enfraquecem”. Isso responde ao comportamento bizarro de torcedores que depredam estádios e agridem torcedores de times opostos; de eleitores fanatizados por algum líder; de fundamentalistas religiosos ou de quaisquer outros movimentos sectários e excludentes, como o racismo. De acordo com o historiador Pinsky, a gravidade reside na convicção inabalável, quando comenta que “A certeza da verdade do fanático não é resultante de uma reflexão ou de uma dedução intelectual”, pois muitas vezes faltam argumentos plausíveis. Enquanto o mais antigo tipo de fanatismo a ser praticado é o religioso, em tempos vigentes, divide o páreo com o político no que tange ao ato extremista e exaltado com que seus atores se movem. Os confrontos de ideia sobre política que, outrora aconteciam nos cafés, praças e botecos, hoje, eclodem em discussões acaloradas nas redes sociais causando rompimento de amizades e, em casos extremos, a violência declarada através de perseguições, assédios, guerras e mortes. Não tem como esquecer o que a história se ocupou de registrar a respeito de verdadeiras atrocidades ocorridas em regimes de exceção, como o nazismo. O cientista político Goldhagen, em sua obra: “Os Carrascos Voluntários de Hitler”, acusa que havia mais de 600 campos de concentração em Hessen (uma média de um a cada 15 quilômetros) e mais 645 em Berlim, de modo que “Uma rede dessa magnitude não existiria sem a conivência da sociedade “ (Szklarz), que comprou a ideia antissemítica. Muito se fala do perigo das figuras míticas na política alavancadas pelo poder midiático, mas o que dizer da acefalia com que multidões se deixam cativar, tornando-se “zumbis” hipnotizados em prol de causas que atentam contra a vida? Diretamente falando: onde está o livre arbítrio e o verdadeiro direito de expressão sem que se tenha que arcar com o ônus de alguma retaliação física, moral ou jurídica? Em tempos que a vaidade do judiciário disputa holofotes na mídia e a anomia faz arrepiar as leis, voltamos à “Caça às bruxas”, deflagrada em perseguições direcionadas, processos esdrúxulos e penas sem culpa. Todos somos responsáveis, tanto pelo que apoiamos quanto no cruzar de braços que damos. Pelo saudosismo das discussões sadias, embaladas por rodados de cafés ou de chopp, onde após a catarse de contrariedades, saíamos leves e ainda amigos.

Bons ventos! Namastê.

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