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Unopar nº 9
Antônio João Manfio
Antônio João Manfio

Professor, graduado em Filosofia. Especialização em Pedagogia da Alternância, Diálogo Ecumênico e Inter-religioso, Administração Escolar. Mestre em Planejamento Educacional e doutor em Pedagogia da Alternância.

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A aura dos cem anos de Celestina

O nome suscitava motivação para recomeçar a vida

Publicado em: 24/11/2018

Natural da linha Onze, Guaporé, com sete anos chegou ao Barril, em 1925, acompanhando os pais João Veronez e Hermínia Vanelli e outros quatros irmãos. A viagem feita com duas carroças foi marcada por dores e esperanças. Após treze dias percorrendo trilhas e picadas, a interminável busca encontrou rancho infestado de bichos de pé, morcegos e picumã, na linha Boa Esperança. O nome suscitava motivação para recomeçar a vida. Depois de alguns anos, primitivo rancho foi substituído por moradia decente. Outros três filhos completaram a família.

Nunca teve infância, porque a vida não deixou. Nem escola, porque as meninas não precisavam de estudo, diziam. O tempo passa de pressa. E a menina logo se fez moça. Casou com vinte anos com Pio Manfio. Nesta idade qualquer moça deveria saber fazer de tudo dentro e fora de casa. Mas, pouco ou nada sabia sobre si mesma. Casamento era festejado como feliz se a prole fosse numerosa. Durante 23 anos contínuos, Celestina ou estava grávida ou amamentando. Por pouco não morreu no primeiro parto. Já desfalecida, foi socorrida pelo doutor Francisco Kertesz, alguns dias antes de ocorrer seu trágico suicídio.

A falta de escola foi compensada pela sabedoria que acumulava no trabalho, no ambiente familiar, na relação comunitária, sempre sustentada pela Fé em Deus. O apanágio desta têmpera pode ser aferido do fato de, na véspera de nascer o terceiro filho, ter ajudado o marido, durante o dia inteiro, a carnear porco de cem quilos.

Sento ao lado dela com a bíblia aberta no capítulo 21 do Apocalipse e ela me diz, com lágrimas nos olhos, que se soubesse ler sua vida seria diferente. A leitura da Bíblia lhe abre a porta do passado, de onde brotam lembranças, que a fazem sorrir e chorar. Mas, as marcas do sofrimento estão mais estampadas em seu rosto. Ela acredita que o sofrimento é caminho seguro para ir até Deus. Mas, o Deus que conheceu no catecismo era muito severo e isto a fez sofrer ainda mais.

Da Bíblia vou retirando retalhos para encobrir cicatrizes que ficaram na sua alma.  Leio e comento passagens que falam que Deus pessoalmente enxugará todas as lágrimas e consolará os aflitos. Talvez seja por isso que ela gosta tanto de escutar o texto sagrado. Ela se consola. A Bíblia robustece sua fé, ajuda-a a redimir seu passado e lhe infunde profunda esperança. Frágil e na cadeira de rodas, lembra tempos em que era mulher corajosa, e sempre dedicada à família.

Seu rosto se enrubesce ao falar dos encargos diários que desempenhava como esposa e mãe. Recorda o passado, com orgulho, e na velhice se sente constrangida depender dos cuidados dos outros. Mostro que isto também aconteceu com o apóstolo Paulo. Das muitas coisas que retiramos do velho baú da memória, uma tornou-se lema para minha história pessoal. Aos treze anos, com frequência, recebia encargos do pai, em tese delegados aos adultos. As exigências das tarefas me angustiavam. Chorava sentindo o peso do fardo. A mãe me consolava dizendo fà quel que te pui. Faça o que pode. E ela, que sempre fez de tudo no limite das forças, confiava que eu daria conta dos serviços. Ao final me dizia gheto visto, te ghé fato tuto polito.

Dez anos mais tarde, em um encontro de jovens católicos em Roma, o papa João XXIII orientou-os com a sabedoria paulina, repicada por Celestina. “Frente os desafios do cotidiano olhem tudo, escolham o que é bom, façam o que podem e deixem passar o resto”. Paulo dizia para escolher o melhor. O papa dizia para deixar passar o que não se pode fazer. A mãe me empoderava ao dizer “faça o que pode”.

Diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus, rezamos, numa tarde de sol, singelo Te Deum. Ela deixou sua alma manifestar-se. Sentia-se na presença de um Deus que acolhe com misericórdia. Parecia aliviada ao dizer “muito obrigado Jesus por ter prometido um bom aposento na casa do Pai”. Na cama, antes de dormir, fala para o crucificado que segura com as duas mãos: “me perdoe pelas faltas e culpas que cometi”. Certa de que todas as faltas foram lavadas pelo sangue do crucificado, me diz que irá para o céu, de certeza. Mas, não faz segredos de que ainda tem planos de futuro: “vamos fazer uma festona no meu aniversário, uma festona de agradecimento. Tuti quanti coá”.

De Celestina podemos dizer que amor e sofrimento sustentaram sua longa jornada que completa cem anos.

Feliz aniversário Celestina – 21/11/18, dia de Nossa Senhora da Saúde.

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