Antônio João Manfio
Antônio João Manfio

Professor, graduado em Filosofia. Especialização em Pedagogia da Alternância, Diálogo Ecumênico e Inter-religioso, Administração Escolar. Mestre em Planejamento Educacional e doutor em Pedagogia da Alternância.

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Paixão cortante

O Rio Grande, o Brasil e o mundo devem a Paixão Cortes o resgate, o cultivo e a preservação deste fantástico legado da tradição gaúcha

Publicado em: 15/09/2018

Os grandes movimentos históricos (religiões, partidos políticos, correntes filosóficas) foram embalados por personagens invulgares. São reconhecidos como “Patriarcas”. Paixão Cortes é o patriarca do movimento tradicionalista gaúcho.

Agrônomo culto criou teoria revolucionária sobre a Extensão Rural. Na época predominava o entendimento preconceituoso que considerava o homem do campo um imbecil. Ele acreditava no poder da Extensão Rural para ajudar o homem do campo a tornar-se protagonista no meio rural. Para isso, os agentes da Extensão, os agrônomos, em particular, deveriam aprender a falar e entender a linguagem do povo.

Por ter penetrado no universo da cultura popular descobriu o jeito de ser e a linguagem poética do gaúcho. Paixão Cortes se fez gaúcho, junto com os que já eram gaúchos. Pessoa de elevada sensibilidade e de capacidade de comunicação soube potencializar a força cultural escondida sob “as calmas noites dos rincões”.

Não foi apenas um cantador. Foi intelectual e pesquisador, reconhecido mundialmente. Ministrou cursos sobre folclore dentro e fora do Brasil. Proferiu palestras em universidades europeias. Exímio professor e classificador de lã e conhecedor da ovinicultura ajudou o Rio Grande a tornar-se o maior produtor de lã no Brasil.

Com o escritor Barbosa Lessa fundou o CTG 35, base e referência para os quase três mil CTGs espalhados nos cinco continentes. Os CTGs foram escolas de desenvolvimento desse jeito de ser do gaúcho e tornaram mais forte a paixão pelo Rio Grande. Paixão Cortes ajudou livrar o Rio Grande do aleijão cultural provocado pelo “complexo de vira-lata”, que continua perseguindo o Brasil. Segundo este complexo, o Brasil foi condenado a ser uma sociedade de segunda classe, um povo sem ética e não confiável.

O Rio Grande aprendeu a ser diferente, e é olhado com admiração, em outros Estados. Na base da diferença está a relação que os gaúchos têm com sua querência. Basta examinar o conteúdo ideológico das músicas Hino ao Rio Grande e Minha Querência, de Paixão Cortes, e Querência Amada, de Teixeirinha.

Moro fora do Rio Grande há 53 anos, tempo suficiente para me desgauchar. Mas, quando escuto o Hino ao Rio Grande e Minha Querência, percebo quanto o Rio Grande se embretou dentro de mim. E sinto imenso orgulho quando ouço alguém falar bem do Rio Grande. Com frequência, me abasteço de frutas no barracão de um alemão oriundo do interior do Paraná. Ele é taxativo: “as frutas do Rio Grande são as mais doces”. Em abril acompanhei o professor Dirceu Benincá, de Erechim, até a Bahia, onde ocupa uma vaga na Universidade Federal do Sul da Bahia. Pernoitamos em São Mateus, norte capixaba, na casa dos pais de uma professora amiga de Dirceu. Ao saber que éramos gaúchos logo foram dizendo “como gostaríamos de conhecer o Rio Grande” e emendaram. “Os gaúchos são diferentes”.

No livro “Nós, os gaúchos”, encontramos abundante literatura sobre este corte cultural que cunhou o jeito de ser e viver do gaúcho. O cineasta e jornalista carioca Arnaldo Jabor escreveu, talvez, a mais apaixonante crônica sobre a paixão cortante que move o gaúcho pelas suas coisas. Mas, é na extensa produção poética e musical sulista que podemos ver a dimensão da diferença cultural incorporada na alma dos gaúchos.

Foi neste contexto de amor dos habitantes por sua querência que o papa, com a cuia na mão, revelou “o Papa é gaúcho”. O Rio Grande, o Brasil e o mundo devem a Paixão Cortes o resgate, o cultivo e a preservação deste fantástico legado da tradição gaúcha.

 

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