Antônio João Manfio
Antônio João Manfio

Professor, graduado em Filosofia. Especialização em Pedagogia da Alternância, Diálogo Ecumênico e Inter-religioso, Administração Escolar. Mestre em Planejamento Educacional e doutor em Pedagogia da Alternância.

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Delação premiada

Para os padrões éticos de hoje, o relho, na mão da autoridade materna, pode ser extravagância pedagógica

Publicado em: 13/01/2020

Pequeno furto no âmbito familiar revela a ambiguidade da alma humana. No dia a dia, a mãe abastecia a família com açúcar mascavo e mantinha escondida porção de açúcar branco para momentos especiais, como adoçar o café do padre, quando visitava a família. Mas foi descoberto e deixou rasto. Tendo percebido a falta na lata escondida, a mãe chamou os seis filhos. De relho na mão, determinou que se acusasse quem havia comido o açúcar proibido, começando pelo mais velho. Se ninguém falasse, todos levariam a surra. Os cinco primeiros negaram. O último, que era inocente, teve tempo de bolar curiosa estratégia para resolver o caso. Pensou assim: “todos negaram, todos iremos apanhar. Eu, mesmo inocente, vou confessar a falta, apanho, mas livro os irmãos da sova”. Humilhado, confessou o crime que não praticou, apanhou e livrou os outros da surra. Anos mais tarde, a infratora cutucada por escrúpulos confessou o delito, na certeza que a consequência do caso havia se diluído na memória familiar.

Para os padrões éticos de hoje, o relho, na mão da autoridade materna, pode ser extravagância pedagógica. A dura pena parece cruel demais. Para a mãe que precedeu o julgamento não era. Ela havia estudado o catecismo e sabia como eram punidos, antigamente, os que infringiam o oitavo mandamento. Para ela, mesmo que se falasse a verdade, o infrator deveria ser castigado.

Ao agir deste modo, aquela mãe desejava cortar o mal pela raiz. Uma xícara de açúcar branco poderia ser o começo para roubar um saco de açúcar em seguida, e mais tarde grilar o canavial. Tratava-se de implantar na memória dos filhos a lembrança do castigo como consequência da infração.

O cobrador de impostos Zaqueu reconheceu-se ladrão e pecador já adulto. Talvez não tenha sido corrigido em casa quando cometia pequenos delitos. Enriqueceu roubando o povo. Mas, a condição de pecador o incomodava e ele quis mudar de vida. Enroscado na forquilha do sicômoro decidiu virar-se pelo avesso, enquanto via Jesus passar seguido por multidão.

Perante o Mestre e amigos que ele convidou para jantar, Zaqueu fez a mais radical delação premiada de si mesmo. Confessou que roubava dinheiro do povo. Não precisou de advogado para escamotear a verdade. Levantou-se enquanto jantava, e, em pé diante de Jesus, abriu sua alma. Falou a verdade (sou ladrão) e declarou como faria penitência (doação da metade do patrimônio e devolução de quatro vezes o valor defraudado). Naquele momento, a salvação entrou naquela casa, disse Jesus.

Empresários, políticos, funcionários, magistrados, autoridades não estão imunes à tentação de transgredir o oitavo mandamento. No entanto, fomos assaltados por onda incontrolável de corrupção. Enganam-se os que acreditam que a Lava Jato purificará o Brasil. O jornalista Walfrido Warde, diz no livro O Espetáculo da Corrupção que o sistema corrupto e o modo de combatê-lo estão destruindo o Brasil. Em cada época, coisas abomináveis são naturalizadas. O escravagismo naturalizou a violência física. O capitalismo naturalizou a exploração do trabalhador e a corrupção como formas de enriquecer. Segundo Walfrido nada se salva no Brasil, está tudo bichado. Estamos todos morrendo eticamente.

Ulrich Beck, no livro A Metamorfose, faz ensaio lúcido e angustiado sobre a agonia desta civilização. A crise de valores afeta o mundo inteiro. Diz ele que ninguém mais consegue entender o que está acontecendo pelo mundo afora, a não ser constatar a morte da civilização. Segundo ele, os cientistas sociais não dispõem de conceitos para falar da metamorfose por que passa o mundo.

A crise quebrou também o telhado da Igreja. Comove a ousadia do Papa Francisco proclamando verdades da Justiça e do Direito, como fundamentos para reconstruir a civilização. Choca ver membros da hierarquia infringindo, com naturalidade, o quinto e o oitavo mandamento. Revolta saber que, com o produto do furto, muitos acobertam escandalosos desvios sexuais. Mas, anima ver que alguns aceitam reparar o mal feito mediante reclusão monástica e rígida austeridade comportamental.

 

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