Quando gosta, gosta...

“Um camangueiro meloso; aquele que apronta e depois, com uma boa lábia, convence que gosta”

Publicado em: 13/01/2020

A secretária do meu escritório, avisou-se que chegara uma senhora querendo falar comigo, mas que só conversaria em particular. Mandei que entrasse.

Estendi a mão num comprimento cordial. Ela era uma pessoa humilde, deu para perceber que não tinha maldade no coração. Ela se apresentou:

- Sou Juvenilda....( o nome, aqui, é fictício – para preservar o sigilo na essência da história, que é real).

- Em que posso ajudar?- perguntei

- o problema é de separação. Meu marido João chega em casa, todo dia, na “manguaça” e se eu reclamo ele ainda me dá um “tundão”.

Perguntei se fazia tempo que isso vinha acontecendo.

- faz mais de ano, doutor!

- Porque a senhora já não comunicou a polícia?

- É que eu gosto dele, doutor!

- mas dona Juvenilda, se gosta de um homem que é “manguaça” e ele lhe bate todo dia, então a senhora não precisa de advogado...

E ela prontamente completou:

- Mas o caso é maior. Tem também as “camangas” que vão lá em casa, atrás dele. Agora quero a separação!

Entendido o problema, comecei o trabalho. Fiz a petição inicial contando a história da Juvenilda e encaminhei o pedido de separação judicial. Marcada a audiência, juntos – Juvenilda e eu – fomos ao foro. Ela parecia uma gata borralheira.

Chamadas as partes, entramos; já estavam na sala o juiz e o promotor.

O João entrou com um terno do casamento, o colarinho da camisa sobreposto à gola do casaco, um palito nos dentes, jeitão de galã barato de novela. O Juiz ouviu primeiro a Autora, que repetiu a história escrita na petição, detalhando as “manguaças”, os “tundões” e as “camangas”.

O magistrado dirigiu-se ao réu:

- o senhor tem alguma coisa a declarar, seu João?

Malandro de botequim, já conhecedor dos códigos, o homem respondeu:

- Excelência, quanto às “manguaça” e os “tundão” ela mesmo disse que não se importa e me deu o perdão tácito. Agora quanto às “camangas” até vou explicar: é que eu não queria casar, mas ela insistiu muito. Eu falei pra ela: “quer casar eu caso, mas tu tens que saber que eu sou um cara camangoso, e mesmo assim ela topou. Mas, doutor, de repente eu posso mudar, acabamos com esse processo e voltamos pra casa juntos”.

O juiz olhou para a dona Juvenilda e perguntou se ela queria continuar com o processo. A mulher abriu um leve sorriso:

- Eu quero ele de volta!

Encerrada a audiência, os dois saíram de mãos dadas.

O juiz, o promotor e eu – advogado gratuito, no caso – ficamos alguns minutos tentando entender qual a exata definição da expressão “camangoso”.

Após algumas confabulações, concluímos que deveria ser algo assim: “um camangueiro meloso; aquele que apronta e depois, com uma boa lábia, convence que gosta”.

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